As duas transições de Bolsonaro

Há uma mudança (para menos) no poder de Paulo Guedes no governo e outra mudanças a se fazer na política social e fiscal da pandemia para o pós-pandemia. As duas transições estão ligadas. Onde isso vai dar?

Fernando Dantas

18 de setembro de 2020 | 21h56

Existem duas transições interligadas ocorrendo no governo de Jair Bolsonaro neste momento. A primeira é a transição da política social e fiscal da pandemia para o período pós-pandemia. A segunda é a transição do papel de Paulo Guedes, o ministro da Economia, que já foi visto como um dos pilares mais importantes do governo Bolsonaro.

A transição do “Posto Ipiranga” pode ou não terminar na saída do ministro do governo, mas já está em pleno curso.

As duas transições se entrelaçam porque Guedes evidentemente, caso mantivesse seu status de superministro, faria tudo para que o País retomasse, após a derrama fiscal da pandemia, o ajuste estrutural gradativo das contas públicas que caracterizou o período de 2015 a 2019.

E isso significa manter como está o teto de gastos ou, caso haja qualquer mudança, conduzir uma engenharia político-fiscal cautelosíssima, que assegure aos mercados que a âncora fiscal continua firme.

Porém, com a transição em curso do papel de Guedes no governo Bolsonaro, aumentam muito as dúvidas sobre como será a transição da política social e fiscal da pandemia para o pós-pandemia.

O ministro da Economia disse recentemente que se retiraria das negociações diretas com o Congresso. Mas, do ponto de vista da simbologia política, uma coisa é Guedes dizer isso, outra é a mesma coisa ser afirmada por um dos seus principais rivais no governo Bolsonaro.

A jornalista Malu Gaspar, da revista piauí, relata no podcast “Foro de Teresina” que Rogério Marinho, o ministro do Desenvolvimento Regional que vem trocando bicadas com seu colega da Economia, disse em “live” com a Consultoria Eurasia, no dia 10, que Guedes está fora das negociações políticas, que cabem ao ministro Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo, e aos líderes do governo na Câmara, Ricardo Barros, no Senado, Fernando Bezerra, e no Congresso, Eduardo Gomes.

Marinho disse ainda “endossar” a decisão de Guedes de sair do debate político, porque sempre se opôs ao “envolvimento direto da equipe econômica em negociações políticas”.

Os mais desprovidos de malícia podem ver apenas concordância entre Marinho e Guedes.

Porém, é bem sabido que no processo de “policymaking” no Brasil – e, provavelmente, na maior parte do mundo – o que entra no Congresso é muito diferente do que sai.

É ilusória a ideia de que, na miríade de conversas, acordos, recuos, avanços, compromissos e traições que caracteriza a tramitação de matéria econômica polêmica no Congresso, envolvendo múltiplos interesses, seja possível a área econômica se ausentar completamente, sendo 100% representada por políticos que só pensam em fazer o que Guedes deseja.

Até o Banco Central, órgão eminentemente técnico, tem uma pauta legislativa, que envolve reuniões diretas com membros do Congresso.

Assim, a declaração de Guedes de que sairia da negociação política direta soa mais como uma postura de modéstia e contrição, por parte de um ministro que já pisou muito em calos de legisladores, do que como uma decisão ipsis litteris de se retirar completamente da articulação da pauta do governo no Congresso.

Já a declaração de Marinho de que Guedes se retirará dos recintos políticos parece ser um “chega pra lá” que evidencia ainda mais – e ajuda a cristalizar – o já perceptível esvaziamento do poder decisório do ministro da Economia.

Como comentou um analista do mercado, em relação à informação de Malu Gaspar, “será que o Guedes está virando café com leite”?

A outra grande questão é o que Marinho e seus apoiadores têm em mente, em relação à transição da política social e fiscal mencionada acima, caso efetivamente consigam consolidar o esvaziamento do “Posto Ipiranga”.

Isso está menos claro. É claro que seria uma postura de maior disposição de gastar, para pavimentar a tentativa de reeleição de Bolsonaro em 2022 da forma tradicional no ciclo político brasileiro.

Mas Marinho, que carregou nas costas as reforma trabalhista e da Previdência, está longe de ser alguém que ignore os riscos políticos do descontrole fiscal.

É possível até mesmo que o ministro do Desenvolvimento Regional e outros participantes do governo, que ora lutam para restringir o poder do Guedes, não tenham a intenção de esvaziar completamente o ministro da Economia, ao ponto de deixá-lo sem opção honrosa que não seja a demissão.

Esse cenário poderia abalar muito o mercado, o que é contraprodutivo para quem quer que a economia cresça pra reeleger Bolsonaro. Pode ser que Marinho e cia estejam mais em busca de algum compromisso com um Paulo Guedes devidamente domesticado, que entenda que “ciclo eleitoral tem que ser parte do jogo”.

Seria uma hipótese menos angustiante para o mercado, mas não necessariamente para Guedes.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/9/2020, sexta-feira.