As entrelinhas do Copom

Risco associado à reforma da Previdência e à agenda fiscal em geral ajuda a entender por que Copom manteve a Selic em 6,5%.

Fernando Dantas

11 de fevereiro de 2019 | 16h41

O comunicado do Copom menos “dovish” do que esperava uma corrente expressiva do mercado, divulgado depois da reunião encerrada na quarta-feira, 6/2, após a decisão de manter em 6,5% a Selic, talvez possa ser explicado mais pelo que não ganhou ênfase no texto do que pelo que foi realçado.

Os dois riscos altistas do cenário são a possibilidade de frustração nas reformas no Brasil e a piora do ambiente externo. O comunicado elabora mais sobre o que mudou, o risco externo, do que sobre o que aparentemente continua igual, o risco das reformas.

Dessa forma, o comunicado avalia que o risco do cenário externo se arrefeceu, mas ainda se mantém. Houve uma mudança na composição do risco externo, com redução do componente ligado à normalização da taxa de juros em “algumas economias avançadas” (leia-se Estados Unidos), mas aumento do componente ligado às chances de desaceleração global, com incertezas como o Brexit e a guerra comercial.

Fica claro que a grande melhora no front do juro americano desde a recente virada dovish da comunicação do Fed pesou mais, para o BC, do que o aumento da preocupação com a desaceleração global – tanto que o risco externo no conjunto se atenuou.

Toda essa atenção ao risco vindo do mundo, porém, não deve tirar o foco do risco das reformas que, no comunicado, é tratado de forma idêntica ao mesmo documento relativo à reunião do Copom de dezembro.

O BC primeiro escreve que “uma frustração das expectativas sobre a continuidade das reformas e ajustes necessários na economia brasileira pode afetar prêmios de risco e elevar a trajetória da inflação no horizonte relevante para a política monetária”.

Adiante, num parágrafo único, reforça que o sucesso da agenda de reformas é importante não só para o cenário de curto prazo, mas “também para a manutenção da inflação baixa no médio e longo prazos, para a queda da taxa de juros estrutural e para a recuperação sustentável da economia”.

É digno de nota que não há nada no comunicado que sugira que o BC comprou o otimismo crescente do mercado em relação à aprovação da reforma da Previdência, que parece estar embutido no forte movimento de alta dos ativos desde o início do ano. A repetição literal entre os Comunicados de dezembro e fevereiro dos trechos relativos ao risco de reformas indica que o Copom não se deixou levar pela empolgação.

O que faz sentido, na avaliação de Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, no Rio.

“A economia tem dois destinos completamente diferentes caso uma boa reforma seja aprovada, ou caso não passe ou seja totalmente desfigurada”, observa a analista.

Nesse sentido, o risco das reformas é particularmente binário e descontínuo. Solange nota que, mesmo no caso de sucesso da reforma, seria necessário avaliar se um eventual reaquecimento mais rápido da economia não reduziria ou eliminaria o espaço criado para novos cortes da Selic (pela saída da cena do pior cenário em termos de risco país e estabilidade macroeconômica).

Por outro lado, essa piora de risco e macroeconômica, com grandes chances de ocorrer em caso de fiasco na reforma da Previdência, certamente criaria um cenário em que cortes da Selic ficariam muito mais difíceis e distantes.

Diante do caráter mais binário do risco associado à agenda de reformas, e da troca de comando no BC, sinalizar Selic estável e “cautela, serenidade e perseverança” parece fazer bastante sentido neste momento.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/2/19, quinta-feira.

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