As idas e voltas do impeachment

Semana passada terminou com probabilidade de impeachment menor do que começou, mas impedimento da presidente Dilma Rousseff ainda é considerado "cenário base".

Fernando Dantas

04 de abril de 2016 | 10h37

A semana passada terminou com a probabilidade de impeachment menor do que quando começou, ainda que o cenário base do mercado permaneça prevendo que, até o fim de abril, será aprovado no plenário da Câmara a abertura do processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff. De qualquer forma, o moderado refluxo do otimismo do mercado em relação ao impeachment afetou o preço dos ativos, mas de forma leve.

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP nota que a bolsa recuou (a partir do pico na quarta-feira) e os juros longos também saíram das mínimas registradas no momento em que o mercado atribuiu maior probabilidade ao impeachment. Assim, o DI de janeiro de 2023, que chegou a cair para 13,60%, estava em 14,10% quando o gestor conversou com a coluna. Em fevereiro, bateu em 16%. A NTN-B de 2050, que chegou a pagar 7,5% acima do IPCA, foi para 6,28% no dia 23 de abril, e hoje de manhã estava em 6,55%. Os CDS do Brasil também tiveram ligeira alta a partir dos vales no momento de maior otimismo.

Já a valorização do real está mais resistente, porque está sendo em boa parte guiada por fatores internacionais, como os sinais “dovish” do Fed, que estão tendo impacto positivo em diversas moedas ao redor do mundo.

De qualquer forma, a possibilidade de o governo derrotar o impeachment na votação da Câmara reapareceu, a partir da ofensiva de Dilma sobre partidos menores da base aliada depois que o PMDB desembarcou da aliança.

“É um erro achar que o governo está morto, ele ainda reúne chances de impedir que a oposição obtenha os 342 votos”, diz o cientista político Octavio Amorim, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape/FGV-Rio), frisando que ainda atribui uma probabilidade considerável a que o impeachment passe.

Em termos políticos, a eventual sobrevivência do governo Dilma a essa primeira investida do impeachment promete ser ainda mais turbulenta do que o seu segundo mandato até agora. Novos pedidos de impeachment terão de ser enfrentados, e a oposição provavelmente manterá um ânimo extremamente belicoso. Num cenário em que Lula no governo assumirá o comando das ações, um eventual sucesso será um passaporte para uma campanha vitoriosa do ex-presidente na eleição presidencial de 2018, caso problemas legais não o inabilitem. É fácil prever que a oposição lutará com unhas e dentes para que Lula fracasse.

Amorim considera que as melhores chances de um governo Dilma, de qualquer forma, dependerão da habilidade de Lula. Ele nota que, para tentar derrotar o impeachment, Dilma está jogando na polarização, que insufla o ânimo dos seus apoiadores, mas, se for vitoriosa, esta postura pode ser abruptamente interrompida.

“Não me surpreenderia se, ganhando a batalha do plenário da Câmara, Lula e Dilma proponham algum acordo de conciliação com setores moderados da oposição e com o empresariado”, prevê o cientista político. Para Amorim, a atual fraqueza do PSDB, fraturado por brigas internas, é um fator que poderia ajudar Lula e Dilma.

Rocha, do JGP, diz que a chance, extremamente difícil, seria Lula conseguir tolerância das centrais sindicais e movimentos sociais para aprovar medidas ortodoxas de ajuste. No front econômico, é provável que uma derrota do impeachment leve os ativos para os níveis atingidos no momento recente de maior pessimismo, com a possível exceção do câmbio, que vem sendo poderosamente influenciado pelo cenário internacional. Ainda assim, alguma desvalorização poderia ocorrer.

Porém, a se crer no sentimento do mercado, que prossegue num estado de absoluta descrença em relação à atual política econômica, a situação, em caso de vitória de Dilma na votação do impeachment na Câmara, poderia se deteriorar de forma mais radical, à medida que se fosse confirmando a previsão de que o atual governo não tem vontade nem capacidade de lidar com as causas da atual crise fiscal e econômica. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 1º/4/16, sexta-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: