As metamorfoses de Lula

O ex-presidente já não é o político aglutinador que poderia ajudar Dilma neste momento.

Fernando Dantas

29 de março de 2016 | 18h06

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva justificou sua entrada (a ser ou não confirmada pelo Supremo) no governo Dilma como decorrente da necessidade de “ajudar” a presidente no momento mais crítico da sua administração. A afirmação foi feita ontem, em discurso a sindicalistas em São Paulo.

Há fortes indicações de que Lula foi nomeado ministro para ser revestido do foro privilegiado diante dos avanços da Lava-Jato. Ainda assim, um motivo não descarta o outro e é bem possível que, tanto para Dilma quanto para Lula, trazer o ex-presidente para o governo seja uma tentativa de mudança de rumo neste desastroso segundo mandato.

Nada parece indicar, porém, que a ideia vai dar certo, ainda que Dilma consiga evitar o impeachment. É verdade que Lula é um político imensamente superior à atual presidente, dotado de uma fabulosa capacidade de comunicação com o povo brasileiro e de muita habilidade de negociação. Mas é preciso considerar que o ex-presidente é um personagem político mutante, e sua última e atual encarnação está longe do perfil que a crise atual demanda.

Para começar, ele foi o alvo principal de hostilidade das gigantescas manifestações de 13 de março. Dilma enfrenta o problema de ser uma presidente que a maioria da população quer que sofra impeachment, sendo que boa parte deste enorme contingente do eleitorado nutre uma intensa aversão ao PT e ao ex-presidente Lula. É evidente que, para todas essas pessoas, a nomeação de Lula soa quase como uma provocação, e tende a acirrar os ânimos, o que não cria um clima propício para negociar com os partidos de oposição as necessárias reformas.

Além disso, Lula, pelas declarações feitas ontem no discurso a sindicalistas, parece continuar sintonizado com a narrativa agressiva das campanhas presidenciais do PT, pela qual o partido, seu grande líder e sua sucessora são responsáveis por quase tudo de bom que aconteceu no Brasil desde o início da década passada, sem que ser reconheça praticamente nenhum erro ou algum mérito de outras forças políticas.

Vangloriando-se, como de hábito, de sua origem humilde e dos aumentos salariais no seu governo e no da sua sucessora (que se desmancham no momento), Lula declarou-se “o resultado da consciência de homens e mulheres trabalhadores do País”. Imbuído, como de costume, de forte sentimento auto atribuído de grandeza, o ex-presidente fez paralelos entre sua situação atual e as tentativas de golpe sofridas por Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.

O Lula que poderia eventualmente ajudar a presidente Dilma a sair do apuro em que se meteu é o presidente do início do seu primeiro mandato, eleito com uma estratégia eleitoral que buscou suavizar a imagem sindicalista e radical e aproximá-lo da classe média. Este Lula, porém, parece ter sido perdido na esteira das feridas deixadas pelo mensalão. O que temos hoje é um ex-presidente que aprofunda ainda mais as divisões e a polarização do País.

Na seara especificamente econômica, ele acena com ideias populistas, como a de que “não podemos manter política econômica que não permita emprego”, quando na verdade a causa do desemprego foi a gestão errada da economia em parte do seu governo e no primeiro mandato de Dilma. Lula é inteligente o suficiente para saber que sem ajuste fiscal não se sai da atual crise econômica, e é possível que esteja tentando a mágica tradicional de alguns governos de esquerda na América Latina, de sinalizar a esquerda e dobrar a direita. De qualquer forma, sua fala não ajuda em nada o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa.

Em resumo, mesmo que tentasse, seria difícil para Lula reassumir o papel de conciliador entre o capital e o trabalho, os pobres e a classe média, a esquerda e o centro que conseguiu exercer brevemente no primeiro mandato, antes que as sequelas do mensalão e a bonança das commodities o empurrassem para um estilo de governo bem menos amigável aos adversários tradicionais do PT. Mas parece que o ex-presidente nem ao menos está tentando. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 24/3/16, quinta-feira.