As oscilações dos serviços

Volume de serviços prestados na economia brasileira em fevereiro decepcionou, mas há sinais mais animadores para março.

Fernando Dantas

13 de abril de 2022 | 21h48

O resultado da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de fevereiro decepcionou, com recuo de 0,2% ante janeiro, na série dessazonalizada. O número foi pior não só que a mediana das expectativas do Projeções Broadcast, de +0,7%, como também do piso, de +0,3%.

Em relação ao mesmo mês de 2021, o volume de serviços prestados em fevereiro último subiu 7,4%, inferior à mediana do Projeções Broadcast, de +8,5%, mas dentro do intervalo de projeções de +6,1% a +13%.

Luana Miranda, economista da Gap Asset, no Rio, observa que houve mudança na técnica de ajuste sazonal do IBGE, que divulga a PMS, o que alterou toda a série. “Isso dificulta interpretar esse número na margem [contra janeiro)”, ela aponta.

Ainda assim, continua a analista, o resultado ano contra ano também decepcionou, com a surpresa particularmente negativa, para ela, dos serviços prestados às famílias, que só cresceram em fevereiro 0,1% (ante janeiro, na série dessazonalizada).

Ela nota que, em janeiro, quando recuou 1% (ante dezembro), essa categoria foi muito afetada pela onda de contaminação da variante ômicron.

“Mas eu esperava que os serviços às famílias retomassem com mais força em fevereiro, o que não aconteceu”, acrescenta.

No entanto, indicadores antecedentes da PMS, segundo Miranda, apontam que pode ter havido recuperação dos serviços prestados às famílias em março.

Os índices de confiança da FGV subiram, entre fevereiro e março, de 84,4 para 91,1 no caso de serviços às famílias; de 92,4 para 102,6 nos serviços de informação e comunicação; e de 83,6 para 86,7 nos serviços de transportes. No mesmo período, a confiança dos serviços profissionais ficou estável em 90,1, e o único recuo foi em ‘outros serviços’, de 102 em fevereiro para 98,2 em março.

Já no ‘IGet’ (Índice GetNet), indicador desenvolvido pela parceria entre o Santander e a GetNet (empresa de ‘maquininhas’ de pagamento), com base em transações desse mercado, no item relativo a serviços às famílias, houve crescimento de 2% em março, em relação a fevereiro; e de 64,3%, ante março de 2021. São transações ligadas a ‘alojamento e alimentação’ e a ‘outros serviços às famílias’. O IGet dos serviços às famílias está 10% acima de fevereiro de 2020 e 10,4% acima da média de 2019 – ambas as bases de comparação são pré-pandemia.

Finalmente, O Índice de Atividade de Negócios no setor de serviços do Brasil da S&P Global (PMI Serviços) subiu de 54,7 para 58,1 de fevereiro para março, a maior aceleração em 15 anos. Já o índice de emprego no setor cresceu no ritmo mais acelerado desde julho de 2007.

Assim, para Miranda, ainda que a PMS de fevereiro – e especialmente os serviços prestados às famílias, que têm peso relevante no PIB – crie um viés de baixa para o PIB do primeiro trimestre, é possível que haja uma retomada parcialmente compensatória em março.

No momento, a economista projeta expansão do PIB de 0,6% no primeiro trimestre (contra o anterior, dessazonalizadamente) e de 0,8% em 2022. A previsão para o 1º tri pode ser revisada para baixo amanhã, mas depende também da divulgação nessa quarta-feira da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) de fevereiro.

Quanto à previsão de PIB no ano, Miranda diz que “acho que não mexeria muito, não, no máximo [baixaria para] 0,7%”. A sustentação do crescimento em 2022 decorre do carrego estatístico mais positivo do quarto trimestre de 2021; de saques do FGTS que devem levar a consumo imediato (o efeito pode representar +0,3pp de PIB no ano); do aumento do investimento de Estados e municípios, que foi de 115% em termos reais no primeiro bimestre, ante igual período de 2021; e de pacotes de estímulo ao crédito anunciados pelo governo.

Fernando Rocha, economista-chefe da gestora JGP no Rio, considera que o resultado da PMS de fevereiro parece indicar que “os serviços vinham se recuperando bem no pós-pandemia e agora chegaram num platô”. Chamou a atenção do analista os dados fracos de serviços de informação e comunicação e serviços prestados às famílias.

Embora considere difícil de interpretar a desagregação da PMS, Rocha considera possível que a alta inflação e sua corrosão da renda real estejam limitando o crescimento dos serviços.

O economista projeta crescimento do PIB de 0,4% no primeiro trimestre (ante o tri anterior) e de 1% no ano.

“Se os serviços estivesse mais pujantes, a gente poderia até pensar em 1,5% [de PIB em 2022]”, avalia. Rocha vê a economia impulsionada por agropecuária e commodities, além da construção civil, com destaque para os investimentos nesses setores. Outro possível vetor de crescimento seria alguma recuperação da indústria automobilística com a regularização da oferta de semicondutores, mas este ainda é um ponto de dúvida.

Já Lucas Rocca, economista da consultoria LCA, enxerga a PMS de fevereiro como sinal de um começo de ano mais fraco, em desaceleração, mas ressalva não considerar que seja mudança de tendência, já que alguns setores ainda mostram resiliência.

“É possível que fechemos o primeiro tri com um resultado mais forte de março se os serviços às famílias, que tiveram desemprenho fraco no 1º bimestre. possivelmente por causa da ômicron, mostrarem alguma recuperação”, ele diz.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/4/2022, terça-feira.