As tensões do câmbio

Fazenda dá sinais de que quer correção rápida e completa do câmbio e dos preços administrados. O problema é que tanto uma coisa como outra dificultam vida do Banco Central. O que pode trazer tensão ao interior da equipe econômica na decisão sobre o que fazer com o programa de swap cambial depois de março.

Fernando Dantas

08 Fevereiro 2015 | 13h59

As recentes declarações do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, sobre o câmbio indicam que a questão cambial pode vir a ser um ponto de tensão no interior da nova equipe econômica. Ele disse que o dólar não deve ser controlado com “mão pesada” nem se manter “artificialmente valorizado”. A assessoria da Fazenda retificou a segunda declaração, dizendo que se referia ao cenário internacional – mas para o mercado ficou claro que o ministro não é fã de manipulações fortes do câmbio.

O atual programa de colocação de swaps cambiais foi anunciado para durar pelo menos até o final de março, e decidir o que será feito daí em diante – incluindo a hipótese de encerrá-lo definitivamente – pode não ser um processo exatamente harmônico e consensual entre a Fazenda e o Banco Central (BC).

Na visão dos críticos da atual política cambial – que poderia ter sido de alguma endossada por Levy nas suas declarações – os swaps não se justificam mais e já deveriam ter sido descontinuados. O programa foi criado em meados de 2013, num momento de turbulência nos mercados internacionais por conta de sinais sobre o início da normalização da política monetária americana.

Mas esse contexto emergencial já foi superado há muito tempo, e hoje o déficit em conta corrente brasileiro de 4,2% do PIB indicaria que é salutar uma desvalorização adicional do real para reequilibrar o setor externo. O problema, porém, é que, para o BC, mais depreciação torna ainda mais difícil reancorar as expectativas inflacionárias e trazer o IPCA para o centro da meta em 2016.

“Há alguns sinais de divergência entre a Fazenda e o BC na questão dos swaps”, diz Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, no Rio. Ela nota que, após as declarações de Levy, fontes anônimas da equipe econômica indicaram em reportagens na imprensa que o programa de swaps poderia continuar em março.

O programa de swaps, em termos de colocação líquida de mais hedge contra a valorização do dólar, já se desacelerou aproximadamente pela metade desde o início do ano. No último trimestre de 2014, a média mensal de novos contratos ficou próxima a US$ 4 bilhões, e em janeiro caiu para US$ 2,2 bilhões. A rolagem dos contratos vincendos tem sido praticamente integral em todos estes meses.

Solange nota que o câmbio não é o único preço que a Fazenda quer ver corrigido o mais rapidamente possível. Também na questão energética, “o Levy quer cada vez mais que a correção aconteça na conta, e não no Orçamento”, diz a economista. Novamente, é uma diretriz saudável para o reequilíbrio da economia, mas que torna mais difícil a tarefa anti-inflacionária do BC.

Tomás Brisola, economista-chefe da gestora BBM Investimentos, acha que o BC já deveria ter encerrado o programa de swaps e acredita que, de qualquer forma, isto vai acabar ocorrendo. Com a instauração do que chama de longo ciclo de alta do dólar e de quedas das commodities (fenômenos interligados) no cenário internacional, ele acha que o Brasil ainda está relativamente caro e que a tendência do real é de desvalorização.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 4/2/15, quarta-feira.