Ásia mantém interesse no Brasil

Fernando Dantas

29 de julho de 2011 | 13h00

Segue minha coluna na AE-News da Broadcast, publicada na quarta-feira (27/7). Saio de férias na segunda-feira, e voltarei a escrever a coluna das quarta-feiras na AE-News no final de agosto.

O interesse asiático pelo Brasil permanece em alta. Recém-chegado de um périplo pelo Oriente, André Loes, economista-chefe do HSBC para a América Latina, constatou que japoneses, coreanos e chineses mantêm uma visão muito positiva do Brasil, o que não significa que não haja algumas dúvidas e questionamentos.

Nos principais países do Leste asiático, relata o economista, quase não se fala, por exemplo, do risco de uma “bolha de crédito no Brasil”, um temor – fundado ou não – que vem ganhando força na Europa. A inflação e as medidas de controle de capital, por outro lado, preocupam os investidores orientais em títulos do governo brasileiro, sejam investidores institucionais, como fundos de pensão, sejam pessoas físicas no mercado de varejo.

Os asiáticos, aliás, são importantes compradores da parcela da dívida pública brasileira que é colocada no exterior. Algumas estimativas da época da crise global davam conta de que um terço dos papéis alocados no mercado externo estava na mão dos orientais, o que equivaleria a aproximadamente 4% da dívida total. O HSBC gere fundos de investidores japoneses em títulos de renda fixa brasileiros com patrimônio de US$ 3,4 bilhões.

O IOF de 6% e outras medidas de controle de capital, segundo Loes, causam desconforto nos japoneses e coreanos, que são os principais investidores da Ásia nos títulos do governo brasileiro. A questão não é tanto de perdas inesperadas, já que o tributo só valeu para compras de papéis posteriores à sua entrada em vigor. E, mesmo em termos de retorno, o IOF ainda permite aos orientais um grande diferencial de juros. No Japão, por exemplo, a taxa de juros de dez anos mal ultrapassa 1%.

O problema do controle de capital estaria mais em sinalizar, junto com a atitude bem mais gradualista do Banco Central no combate à inflação, uma possível mudança de orientação na política econômica. Como sintetiza Loes, trata-se do temor de que “se cometam heterodoxias maiores”. Diretamente, a inflação também não afeta o investidor, já que tipicamente japoneses e coreanos compram papéis prefixados.

Tanto a inflação como as medidas de controle de capital, porém, apontam na direção de um tema que influencia diretamente o rendimento dos aplicadores asiáticos: a taxa de câmbio. Uma desvalorização de 10%, por exemplo, já comeria quase todo o ganho dos investidores orientais nos títulos públicos brasileiros, ao menos no curto prazo. Loes nota que a inflação representa uma valorização ainda maior do câmbio real, que, associada ao déficit em conta corrente que o Brasil vem apresentando, traz o risco de uma correção brusca no futuro, com forte desvalorização nominal – que é a maior preocupação dos compradores de papéis de renda fixa.

Setor produtivo

O interesse dos asiáticos, porém, não se limita ao investimento financeiro em renda fixa, acrescenta o economista-chefe do HSBC. Ele também fez diversas visitas a conglomerados japoneses e coreanos, e a empresas de tecnologia da China e de Hong Kong. O principal interesse de japoneses e coreanos está no setor de mineração e, neste caso, apesar de o foco principal ser o Brasil, outros países sul-americanos, como Peru e Chile, estão no radar.

No caso peruano, há grande demanda por informações sobre o presidente eleito Ollanta Humala, que tem a intenção de introduzir uma taxação sobre os lucros extraordinários do setor de mineração. A visão do HSBC transmitida às empresas visitadas (cujos nomes Loes preferiu não mencionar) é de que o governo Humala caminha de fato para o centro, o que foi confirmado pelas principais nomeações para o ministério. O presidente eleito tem dito, aliás, que a introdução do imposto da mineração será negociada, e não forçada de forma unilateral.

Um aspecto que chamou a atenção de Loes na sua viagem ao Oriente foi o interesse de empresas chinesas visitadas em investir, ou ampliar os investimentos, na área industrial no Brasil, em setores de tecnologia, como equipamentos de informática, e de eletrodomésticos. Nas suas visitas a esses grupos, o economista não só ouviu sobre a intenção dos chineses de explorar o grande mercado doméstico brasileiro, como também de usar as fábricas no país como base de exportação para o resto da região.

Há, é claro, preocupação dos dirigentes chineses com problemas como a dificuldade de se obter mão-de-obra qualificada e as oscilações de câmbio. Neste segundo caso, Loes e seus colegas de bancos participaram de discussões detalhadas sobre as opções de hedge cambial no Brasil, envolvendo inclusive executivos da área de vendas das empresas chinesas.

Mas o que surpreendeu mesmo o economista foi o simples fato de haver todo esse interesse dos chineses de montar e expandir operações industriais no Brasil, apesar de todos os problemas relacionados a competitividade, câmbio e doença holandesa do País, de que tanto se fala.

Na visão de Loes, a diplomacia econômica da presidente Dilma Rousseff, e, especialmente, a sua visita à China em abril podem ter logrado um importante efeito de atração das empresas chinesas. O governo brasileiro deixou claro que gostaria de ver uma relação comercial menos desequilibrada, em que não ficasse caracterizado de forma tão gritante que o Brasil é o fornecedor de matérias-primas, e a China de produtos industriais. Assim, o governo chinês, que tem grande influência sobre as empresas do país, inclusive as privadas, pode tê-las estimulado a trocar um pouco da exportação de produtos para o Brasil por exportação de capitais, mas garantindo de qualquer forma a participação no mercado brasileiro.

Um último aspecto relevante que o economista destacou na sua viagem é que, gradativamente, os orientais vão ganhando uma perspectiva mais realista sobre a economia brasileira. Ainda há, entre os menos informados, a impressão de que o Brasil se insere no grupo de países de crescimento tendencial muito veloz, acima de 5%, a maior parte deles da própria Ásia. Para Loes, contribui para isso a inclusão do Brasil no grupo Brics, no qual faz companhia à China e à Índia, cujo crescimento sustentável “está mais para 10% do que 5%”. O próprio desempenho brasileiro em 2010, quando cresceu 7,5%, também estimula aquela percepção.

Potencial de crescimento

Nas suas visitas, o economista-chefe do HSBC procurou esclarecer que aquela visão é equivocada. Para ele, com sua taxa de investimento ainda muito baixa, o Brasil não tem como crescer de forma sustentável a 7% (como às vezes julgam alguns observadores asiáticos), mas sim algo entre 4% e 5%. Por outro lado, ele explicou que, mesmo não crescendo a um ritmo de tigre oriental, o País tem fundamentos muito fortes, reservas internacionais muito altas e oportunidades de elevado retorno muito boas. A mensagem parece ter sido bem apreendida pelos asiáticos, que continuam entusiasmados com as possibilidades de investimento no Brasil, tanto financeiros como produtivos.

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