Autocrítica da nova matriz, nem pensar

Economistas ligados a Lula e o próprio candidato a presidente indicam que vão defender políticas heterodoxas e intervencionistas que, segundo a narrativa liberal, levaram à recessão de 2014-16.

Fernando Dantas

15 de abril de 2022 | 21h00

A candidatura Lula dá sinais de que não fará autocrítica da política econômica de parte do governo do ex-presidente e do primeiro mandato de Dilma Rousseff, batizada de “nova matriz econômica”.

Como noticiado pela CNN, dois livros estão sendo escritos com essa visão de defesa daquelas políticas, um por Guilherme Mello e Pedro Rossi, economistas de Campinas, e outro por Guido Mantega, ministro da Fazenda durante todo o período da nova matriz. Todos esses autores são ligados ao PT, e têm aparecido como influentes nas atuais ideias econômicas de Lula.

De maneira geral – refiro-me ao debate que já chegou ao público e não, naturalmente, a detalhes específicos dos livros ainda não publicados –, a interpretação desse grupo é de que os principais erros que levaram à brutal recessão de 2014-16 foram de Joaquim Levy, ministro da Fazenda durante o primeiro ano (2015) do segundo mandato de Dilma, interrompido em 2016 pelo impeachment.

O erro de Levy teria sido o de estar à frente de um ajuste fiscal, parafiscal (BNDES), de preços represados e monetário rápido e intenso demais, que teria transformado uma desaceleração compreensível em função do fim da alta de commodities numa violenta recessão.

Fora isso, a erosão de capital político de Dilma pelo processo de impeachment, levando a pautas bomba, perda de governabilidade e  consequente instabilidade, seria outro elemento do colapso a partir de 2015. Finalmente, a Lava-Jato e seus efeitos econômicos nocivos no setor de petróleo e gás, infraestrutura e construção pesada fechariam o elenco de causas domésticas.

Nem é preciso dizer que, na visão petista, tanto o impeachment como boa parte da Lava-Jato foram processos ilegítimos do ponto de vista da ordem democrática.

A narrativa tratada nesta coluna também vê a manutenção do figurino ortodoxo-liberal por Temer e Bolsonaro (apesar da esculhambação recente desses preceitos pelo atual presidente) como razão para o sofrível desempenho econômico brasileiro desde 2017.

Essa abordagem da história econômica recente evidentemente eriça os pelos de correntes centristas dos formadores de opinião – mais do que do eleitorado como um todo, verdade seja dita – que se inclinam para Lula na disputa com Bolsonaro.

Este grupo se animou com a escolha do ex-tucano Geraldo Alckmin como vice-presidente na chapa de Lula. O gesto sinalizaria moderação e desejo de se aproximar do centro por parte do líder petista. Dessa forma, a defesa da política econômica do período da nova matriz por economistas ligados ao PT e pelo próprio Lula é “água no chope” daquela turma esperançosa.

Segundo o analista político Ricardo Ribeiro, sócio da consultoria Ponteio Política, a defesa pelo PT da política econômica do período Lula-Dilma não surpreende e até faz sentido do ponto de vista de tática eleitoral.

“O eleitor que acompanha esse tipo de debate é uma minoria e essas posições não causam dano eleitoral”, ele analisa.

Bem mais prejudicial, acrescenta, são declarações recentes de Lula como aquela em que afirmou que o aborto “é questão de saúde pública e não vergonha”, ou a de crítica à classe média brasileira que ostentaria padrão de vida acima do necessário, ou aquela em que disse ter a intenção de demitir 8 mil militares de cargos comissionados.

“Tudo isso municia a campanha de Bolsonaro para pintar como falsa a moderação de Lula”, avalia.

Por outro lado, Ribeiro discorda da visão de que as ideias econômicas mais intervencionistas e heterodoxas estejam sendo apoiadas por Lula da boca para a fora, e dariam lugar a uma política mais ao estilo de 2003-05 caso o petista seja eleito.

“Tem que acreditar no que Lula está falando”, diz o analista, citando especificamente a mudança no teto de gastos, a revisão da reforma trabalhista, a interferência nos sistema de preços da Petrobrás e a disposição de praticar uma política econômica mais desenvolvimentista e aumentar gastos sociais.

A grande dúvida, para Ribeiro, é a calibragem desse tipo de política econômica, que em tese pode ser tão pesada como nos tempos da nova matriz mas também pode não ser.

Já o cientista política Octavio Amorim Neto (Ebape-FGV) considera que livros como os mencionados na abertura desta coluna e a recusa à qualquer autocrítica econômica por parte da candidatura de Lula “são inoportunos do ponto de vista político”.

Amorim Neto vem defendendo a ideia de que a chapa Lula-Alckmin deve evoluir, em termos de campanha e governo (se vencer) para uma grande coalizão democrática contra o crescente risco autoritário representado por Bolsonaro.

Dessa forma, ele considera que, para além do campo da esquerda, Lula deve buscar atrair “o maior número possível de partidos de centro-direita”. Nesse sentido, o pesquisador recomenda para candidatura petista um “discurso inclusivo e que contenha alguma autocrítica”, o que se choca com a defesa quase integral da nova matriz.

Amorim Neto ressalva que, do ponto de vista acadêmico, o debate sobre as causas da grande recessão de 2014-16 é bastante válido. Ele acrescenta, inclusive, que aquilo que vê como intransigência intelectual e ideológica dos dois lados da discussão – ortodoxos e heterodoxos – também contribui para a excessiva polarização política do país.

“Um diálogo e um encontro entre essas duas correntes daria mais lastro à campanha de Lula, e permitiria que ele se concentrasse na questão da democracia contra o autoritarismo, que é a principal”, conclui Amorim Neto.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/4/2022, quinta-feira.