Balança comercial zerada?

Fernando Dantas

25 de março de 2014 | 15h37

José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), prevê no momento um saldo comercial em 2014 em torno de zero. A projeção oficial da AEB ainda é de US$ 7,2 bilhões, feita em dezembro. Mas, diz Castro, muita coisa mudou em três meses. “O quadro está mudando semana a semana”, ele observa. A próxima data para revisão da projeção oficial é julho, acrescenta. Castro já não descarta resultado negativo na balança comercial este ano, embora também ache possível um pequeno resultado positivo.

A primeira grande mudança, segundo Castro, são as plataformas de Petróleo da Petrobrás. Este é um estranho tipo de exportação, para dizer o mínimo, mas garantiu US$ 7,7 bilhões para evitar déficit comercial em 2013 (o resultado foi um superávit de US$ 2,56 bilhões).

Unidades da Petrobrás no exterior encomendam plataformas para estaleiros no Brasil, e, embora os equipamentos jamais saiam do País, eles são “exportados” e a Petrobrás do Brasil os aluga, o que impacta a conta de serviços. Na balança comercial, porém, trata-se de exportação.

Segundo Castro, em dezembro havia previsão de U$$ 5 bilhões em exportações de plataformas em 2014, mas agora as indicações são de que o número ficará entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões.

“Em dezembro, ninguém imaginava também que a situação iria ficar tão ruim na Argentina”, ele prossegue. Assim, considera provável que a balança comercial perca mais US$ 3 bilhões, em relação à atual projeção oficial, por causa dos problemas do país vizinho.

Da mesma forma, a queda de preço do minério de ferro está sendo maior que a antecipada, tendo chegado, ele diz, a aproximadamente 20% em 2014. A sua previsão é de que, ao longo de todo o ano, o preço médio do minério fique 10% abaixo do registrado em 2013, o que poderia subtrair outros US$ 3 bilhões à balança.

A queda de outras commodities já era esperada e, na verdade, houve uma enorme alta do café, em função de apreensão ou especulação com a seca no Brasil. Castro estima que, na outra direção, isso possa trazer de US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão à balança.

Ainda há, como novidade recente, o anúncio da Agência Nacional de Petróleo (ANP) de que importará US$ 500 milhões a mais de gasolina este ano, e US$ 1,5 bilhão de diesel. Castro ainda trabalha com aumento da exportação de petróleo em 50% em relação à 2013, mas nota que “isto ainda não transpareceu nos resultados de janeiro e fevereiro”.

Da mesma forma, o impacto negativo que a desvalorização do câmbio deveria ter – combinada à desaceleração do consumo das famílias – nas importações também não apareceu nos dados da balança comercial dos dois primeiros meses do ano.

“Pela fotografia atual, tudo parece caminhar na direção de um superávit muito pequeno ou mesmo de um déficit em 2014”, conclui o presidente da AEB.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast na quarta-feira, 19/3/14. 

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