Renda extra

Fabrizio Gueratto: 8 maneiras de ganhar até R$ 4 mil por mês

Banco Central no olho do furacão

Depois de o Banco Central divulgar uma ata da reunião do Copom de outubro com mensagem de preocupação inflacionária menos explícita do que esperava boa parte do mercado, Roberto Campos Neto, presidente do BC, recebe pito público no Twitter de Rodrigo Maia por supostamente ter vazado à imprensa uma reunião entre os dois sobre a crise fiscal. Maia se retratou, mas tem sido dureza para Campos Neto.

Fernando Dantas

29 de outubro de 2020 | 22h12

O Banco Central entrou no olho do furacão da bagunça nacional neste fim da pandemia. Ontem, após a reunião do Copom, foi divulgado um comunicado com mudanças na comunicação em função da alta recente da inflação.

Porém, como observou um analista, “o BC fez, sim, um sintonia fina, mas muito fina em relação ao que o mercado precifica – vamos ver a reação amanhã [hoje, na verdade, a conversa com a coluna foi ontem]”.

A reação do mercado, porém, certamente não deve ter sido a principal preocupação de Roberto Campos Neto, presidente do BC, nesta manhã.

Mais cedo na manhã, Campos Neto foi alvejado por um tonitruante “tweet” de Rodrigo Maia, presidente da Câmara, sobre uma conversa entre os dois realizada ontem.

Segundo Maia, “a atitude do presidente do Banco Central de ter vazado para a imprensa uma conversa particular que tivemos ontem não está à altura de um presidente de Banco [Central] de um país sério”.

Uma hora depois, Maia se retratou, também no Twitter: “Recebi há pouco ligação do presidente do BC afirmando que ele não divulgou à imprensa a nossa conversa. Diante da palavra do presidente, o vazamento certamente foi provocado por terceiros. Deixo aqui registrado [sic] a ligação e a confiança que tenho nele”.

A emenda, no caso, certamente não foi pior que o soneto, mas ainda assim não se pode dizer que as reverberações de um pito público como o primeiro tweet cessem total e imediatamente com o recuo no segundo.

Porque há uma questão de fundo na rusga. O Banco Central depende muito, para fazer um bom trabalho, de que Executivo e Legislativo se entendam para que o ajuste fiscal estrutural seja retomado em 2021, depois do estouro do déficit e da dívida este ano em função da pandemia.

Se o tempo for passando e nenhum sinal mais efetivo de que isso ocorrerá surgir, não é exagero dizer que o BC passará a depender desesperadamente de que governo e Congresso ajam para pôr fim à incerteza fiscal.

Segundo o relato da imprensa, Maia teria dito a Campos Neto que parlamentares da base de governo têm trancado a pauta e atrasado votações de interesse da equipe econômica.

Vista sob o prisma do imbróglio desta manhã, o comunicado da reunião do Copom terminada ontem (que manteve a Selic em 2%) é um exercício de contenção de nervos e de recados cifrados para não escancarar angústias e piorar a situação.

O recado “em sintonia fina” foi passado em quatro pontos. O primeiro é que o Copom elevou o tom (e o espaço dedicado a isso no texto) do alerta sobre a inflação atual. O BC voltou a dizer que considera o choque, que atingiu alimentos e bens industriais, temporário, mas acrescentou (em relação ao comunicado da reunião de setembro) que “monitora sua [do choque] evolução com atenção”. Em “bancocentralês”, essa última observação está longe de ser irrelevante.

Um segundo ponto é que “as diversas medidas de inflação subjacente”, que, no comunicado de setembro, permaneciam abaixo dos níveis compatíveis com o cumprimento da meta, agora estão nos níveis compatíveis.

Já no trecho em que comenta os riscos relativos ao cenário básico para a inflação, ao tratar dos riscos “para cima”, o comunicado incluiu (em relação ao de setembro) a observação de que “o risco fiscal segue criando uma assimetria altista”.

O BC manteve no comunicado a menção à possibilidade de um ajuste remanescente da Selic para baixo (pequeno), mas retirou do texto comentário sobre em que condições “eventuais ajustes futuros no atual grau de estímulo ocorreriam”. Essa supressão indicaria que o BC está menos confortável com a ideia de um corte adicional.

Finalmente, claro, as projeções do modelo do BC para o IPCA de 2020 e de 2021 no cenário principal subiram, como seria de se esperar: de, respectivamente, 2,1% e 2,9% para 3,1% e 3,1%. A projeção de 2022 foi mantida em 3,3%, como já constava do comunicado da reunião de setembro.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/10/2020, sexta-feira.

Tendências: