Bancos Centrais na berlinda

Encontro de Jackson Hole, promovido pelo Fed (BC americano) de Kansas, mostra bancos centrais na encruzilhada entre inovar em ritmo normal ou inovar em ritmo acelerado.

Fernando Dantas

30 de agosto de 2016 | 21h51

O célebre economista Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro norte-americano, declarou-se, em texto publicado em seu blog, decepcionado com as discussões do simpósio de Jackson Hole, o grande encontro sobre economia e política monetária organizado anualmente pelo Federal Reserve (BC dos EUA) de Kansas City. A conferência este ano foi realizado de 25 a 27 de agosto.

Summers criticou tanto o viés relativamente ‘hawkish’ das declarações – lidas em conjunto – de Janet Yellen, chair do Fed, e do seu vice, Stanley Fischer, que disse que até dois aumentos dos Fed Funds, a taxa básica de juros, eram possíveis até o fim deste ano.

Mas o que mais incomodou Summers foi que as autoridades monetárias americanas buscaram guardar certa distância em relação às propostas mais ousadas de mudanças na política monetária, como metas de inflação mais altas e um aumento permanente do balanço dos BCs (o que significa não desfazer a ampliação provocada pelas políticas de afrouxamento quantitativo, que levaram à compra de títulos de longo prazo em poder do mercado).

O ex-secretário do Tesouro vê certa “complacência” na atitude do Fed, no sentido de que o BC dos EUA continua a jogar suas fichas na combinação de política monetária convencional (mudanças na taxa básica) e nas novas modalidades não convencionais já utilizadas, como afrouxamento quantitativo e orientação prospectiva (“forward guidance”). Summers considera que os resultados dessas terapias em termos de eliminar o risco deflacionário e reanimar as economias ricas ficaram aquém do esperado, mas os dirigentes do Fed sinalizam que vão continuar a tocar o barco da mesma forma.

Na verdade, Yellen e alguns presidentes de Fed regionais de Jackson Hole também deram grande ênfase ao fato de que a política fiscal tem que ser acionada para lidar com o ambiente de fraca demanda, baixíssimos juros e crescimento decepcionante que vem dando a tônica nos países ricos desde a grande crise de 2008 e 2009.

A crítica de Summers indica como a cúpula do Fed encontra-se em uma situação incômoda, em que está vulnerável a críticas provenientes tanto do lado mais dovish quanto do mais hawkish. Houve interpretações sobre o recém-terminado simpósio de Jackson Hole que, bem ao contrário da visão do ex-secretário do Tesouro dos EUA, apontaram uma disposição mais firme dos dirigentes dos principais BCs (incluindo o do Japão e o BCE) de prosseguir na trilha dos instrumentos anticonvencionais e de não pensar em voltar ao passado pré-crise, em que a fixação das taxas básicas era praticamente a única ferramenta de política monetária.

Uma discussão interessante em Jackson Hole, por exemplo, levantada por Marvin Goodfriend, da Carnegie Mellon University, é sobre como os BCs poderiam levar taxas de juros nominais a território ainda mais negativo do que já vem ocorrendo em casos como o da Suíça, Japão e países nórdicos. Essa abordagem poderia envolver o fim do papel moeda e/ou a imposição de juro numa moeda eletrônica, para barrar os caminhos de fuga de taxas negativas (como, por exemplo, o entesouramento de papel moeda). No caso específico das taxas de juros negativas, entretanto, Yellen deu mostra de ceticismo ao nem mencionar o tópico nas suas falas.

O que fica claro nessas discussões e nos pronunciamentos em Jackson Hole de dirigentes dos principais BCs é que as autoridades monetárias, embora estejam intelectualmente abertas à discussão sobre novas ferramentas para enfrentar o risco deflacionário, ainda se apegam ao convencionalismo típico das suas funções.

Os bancos centrais independentes exercem um grande poder sem respaldo do voto popular, uma espécie de exceção institucional dentro das principais democracias, e que é justificada pela natureza teoricamente técnica do seu trabalho. Um corolário dessa peculiar posição das autoridades monetárias é que elas precisam cultivar uma imagem de forte respeitabilidade e confiabilidade, o que não combina com grande apetite para mudanças ousadas e apostas arriscadas. Durante décadas, os BCs construíram sua reputação como combatentes da inflação e defensores do valor da moeda. É difícil, portanto, fazer a transição para o papel de operadores de esquemas estranhos, como taxas de juros negativas, ou proponentes de aumentos da meta de inflação.

A preocupação de Summers e de outros economistas é que a lenta velocidade de mudança imposta pelo tradicional conservadorismo dos BCs não se coadune com a necessidade de movimentos rápidos e enérgicos para evitar que a “estagnação secular” se consolide como um estado permanente das economias desenvolvidas. (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/8/16, segunda-feira.

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