Banda diagonal chinesa

Otaviano Canuto, diretor executivo do FMI, diz que novo sistema cambial chinês é similar ao fracassado experimento tentado por Francisco Lopes em 1999 no Brasil. Diferença é que China tem bala na agulha em termos de reservas para bancar novo regime.

Fernando Dantas

14 de agosto de 2015 | 20h00

Otaviano Canuto, diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI), observa que a mudança do regime cambial chinês nada mais é do que a introdução de uma “banda diagonal endógena”. Em outras palavras, o novo sistema do yuan é similar à malfadada banda diagonal endógena que o ex-diretor do Banco Central (BC), Francisco Lopes, tentou introduzir na saída do regime câmbio fixo em 1999, e que implodiu quase imediatamente.

Canuto explica que, no novo regime chinês, mantém-se um sistema de banda, como anteriormente, mas cujo ponto médio a cada novo dia de negociações leva em consideração a cotação de fechamento do dia anterior. Na verdade, mais do que apenas seguir o mercado, o novo sistema permite que o Banco Popular da China (PBC, na sigla em inglês pela qual é conhecido internacionalmente) lidere o deslocamento da banda de uma forma “diagonal”, fixando seu centro a cada dia de uma maneira “endógena”, isto é, ligada ao fechamento do dia anterior.

“A mudança do regime cambial chinês foi lida como um movimento de desvalorização, mas há muito mais em jogo – na verdade, trata-se de uma formação de taxa de câmbio mais sensível às pressões do mercado, que no momento são de desvalorização”, diz o diretor do FMI.

No regime anterior, de bandas, havia estabilidade bem maior entre as cotações do yuan e do dólar, e as mudanças que aconteceram eram promovidas de forma muito gradual. Recentemente, porém, a pressão de desvalorização (associada à apreciação global da moeda americana) vinha empurrando a cotação do yuan em dólares para o teto superior da banda de 2%.

A grande diferença entre a China e o Brasil no experimento com a banda diagonal endógena, segundo Canuto, é que o país asiático tem um enorme volume de reservas e consegue garantir que o yuan fique dentro das bandas fixadas diariamente. Já o Brasil em 1999 chegava exaurido de reservas ao fim de um regime de câmbio semifixo que havia se tornado insustentável por causa da fragilidade do balanço de pagamentos.

“Com a China temos um resgate da ideia, que deve funcionar porque as condições objetivas permitem”, ele diz.

Canuto nota que o PBC teve dificuldades de comunicar a mudança, o que provocou nervosismo e temores em relação a uma suposta “guerra cambial”. De terça a quinta, houve uma desvalorização acumulada de 4,5%, mas na sexta-feira o banco central interrompeu o movimento fixando o centro da banda num valor ligeiramente mais valorizado do que o fechamento do dia anterior.

Para o diretor do FMI, a magnitude da desvalorização de 4,5% é bem menor do que parece à primeira vista, porque o dólar tem se valorizado em relação a outras moedas chave. “Se ponderarmos pelos fluxos de comércio da China, o yuan vinha se valorizando parcialmente junto com o dólar; essa desvalorização devolve parte da valorização anterior”, ele diz.

Canuto coloca a mudança cambial chinesa no contexto do esforço reformista do país, em que um dos muitos itens da agenda é fazer do yuan uma moeda mais parecida com as outras que têm papel central nas transações internacionais. Um dos aspectos desse esforço é a candidatura do yuan para entrar na cesta de moedas que forma a moeda escritural do FMI, os direitos especiais de saque (DES). A decisão será tomada antes do final deste ano, mas só começará a ter efeito (caso o yuan entre) em outubro de 2016. Hoje, as moedas que compõem a cesta do DES são dólar, euro, libra esterlina e iene.

O economista explica que tornar a moeda chinesa mais utilizável como ativo financeiro não é exatamente uma pré-condição formal para que ela entre na cesta do DES, mas tornaria mais fácil operacionalizar a decisão caso ela fosse tomada. O yuan passa fácil no critério de seu peso nas transações comerciais globais, sendo a terceira moeda mais usada.

Já em termos do que Canuto chama de “usabilidade” financeira, “a fotografia indica que ainda não chegamos exatamente lá, mas o filme desde 2010 mostra que se caminha na direção adequada”.

A plena conversibilidade, ele nota, não é um pré-requisito. O franco suíço tem conversibilidade plena, mas, segundo o diretor do FMI, “não tem densidade de uso para compor a cesta do DES”. Ele observa ainda que o DES é uma moeda escritural, mas que em determinadas circunstâncias os países-membros podem converter em moeda real que seja utilizável em transações comerciais e financeiras. O yuan parece estar neste caminho. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 14/8/15, sexta-feira.

 

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