Barbosa enfrenta ceticismo e “onda argentina” em Davos

Nelson Barbosa passou uma mensagem de esforço fiscal e estabilização da economia em Davos. Mas sucesso argentino e ceticismo dos brasileiros em relação ao novo ministro da Fazenda tornaram o trabalho de Barbosa no Fórum Econômico Mundial mais difícil.

Fernando Dantas

25 de janeiro de 2016 | 06h47

(DAVOS) – No seu programa inaugural no Fórum Econômico Mundial, o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, topou com duas das dificuldades que provavelmente o acompanharão durante o seu longo e intenso périplo em Davos. A primeira é que o seu discurso de ortodoxia e ajuste fiscal é bem recebido por quem não o conhece, mas convence menos executivos e economistas brasileiros ou que tenham um conhecimento mais minucioso da cena econômica e política do Brasil.

A segunda dificuldade é que o Brasil aparece desta vez no Fórum como um coadjuvante mais medíocre da Argentina que, como na parábola do filho pródigo, está entusiasmando o establishment internacional por voltar à trilha da ortodoxia depois de mais de uma década de intenso populismo.

Bem a propósito, o primeiro compromisso de Barbosa em Davos foi um almoço promovido pelo Banco Itaú, no elegante Hotel Steingenberger Belvédère, durante o qual os palestrantes foram ele e o novo presidente do Banco Central argentino, Federico Sturzenneger. Cerca de 50 altos executivos, economistas e profissionais de finanças compareceram ao almoço, incluindo Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia.

Já na entrada, um financista brasileiro tecia comentários entusiasmados sobre Sturzenneger, mas preferia responder com um “sem comentários” ao que esperava de Barbosa. Ele deixou claro que não tinha confiança no trabalho do novo ministro da Fazenda do Brasil.

Essa atitude contrasta fortemente com o que o conhecido economista venezuelano Ricardo Hausmann, professor de Harvard, declarou logo após o almoço, quando perguntado sobre as supostas inclinações heterodoxas de Barbosa.

“Não ouvi nada disto, nem tive essa impressão, de jeito nenhum – o que ouvi do ministro é que a sua forma de estimular a economia é criar sustentabilidade nas contas fiscais, para que a confiança retorne”, disse Hausmann.

Outro participante do sistema financeiro nacional comentou, depois do almoço, que a apresentação de Barbosa foi “o feijão com o arroz, e ele tentou passar a impressão de que fará o que o livro-texto (de Economia) manda”.

Mas a mesma fonte acrescentou que Sturzenneger “estava muito mais livre, leve e solto, porque participa de um governo novo, e portanto não tem nenhum constrangimento em olhar para trás e de falar de tudo o que tem que ser reformulado”.

Ele acrescentou, sobre o almoço de hoje, que “o público foi muito comportado, e ninguém perguntou nada sobre o passado (de Barbosa)”, uma referência ao fato de que o atual ministro fez parte durante algum tempo da equipe econômica do primeiro mandato de Dilma, cujo desempenho é execrado pelo mercado financeiro e pelos economistas de orientação ortodoxa.

Carlos Pellicer, principal executivo do grupo agrícola brasileiro UPL, que também atua na Argentina, disse que Barbosa foi bastante convincente, mas esbarrou no problema de que a situação econômica atual do Brasil é de fato muito difícil. “Falta uma visão, um cenário; ele tem um plano, mas que depende de muita coisa, do ajuste fiscal, do Congresso”, disse Pellicer.

Já a Argentina, para o executivo, “está surfando a onda, num momento muito positivo, e tem os elementos para crescer”. Ele elogiou a decisão do novo governo de Mauricio Macri (que participa do Fórum Mundial deste ano) de acabar com o imposto de exportação do milho e de reduzir o da soja.

Segundo Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú-Unibanco, que participa do Fórum Econômico Mundial, encontram-se dois tipos de atitude em relação ao Brasil por parte dos executivos que estão em Davos. Os que chefiam multinacionais já presentres no Brasil estão sob o impacto dos fracos resultados recentes, em função da crise, e tendem a achar que o pior não vai acontecer, mas tampouco haverá uma retomada robusta.

Já as empresas que ainda não estão no País olham para os baixos preços dos ativos, em função da crise e do câmbio desvalorizado, e veem uma chance de entrar, pensando numa possível recuperação, mesmo que esta demore dois ou três anos para acontecer.

Nessa visão, o desafio de Barbosa em Davos seria injetar ânimo no primeiro grupo e suscitar ainda mais apetite do segundo – que pode perder o ponto de compra se a economia melhorar e os ativos subirem de preço. (Fernando Dantas e Fernando Nakagawa, enviados especiais a Davos)

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Na quinta-feira, Barbosa teve outra reunião com participantes do Fórum, mais animada e com um grupo de maior peso. Abaixo, uma pequena nota abaixo sobre essa segunda apresentação do ministro da Fazenda:

O ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, foi mais “afirmativo, conceitual, e menos burocrático”, na descrição de um participante, durante uma reunião esta manhã no Fórum Econômico Mundial com um grupo de investidores internacionais no Brasil. O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, também estava presente. Temas como inflação e política fiscal voltaram a ser discutidos.

A fonte mencionada comparou o desempenho de Barbosa neste encontro com o do almoço ontem promovido pelo Itaú em Davos, quando a fala do ministro foi considerada “chocha” por outro participante.

Executivos de alto calibre participaram da reunião desta manhã, como Jean-François van Boxmeer, ceo da Heineken, Ana Botín, ceo do Santander, e Martin Sorrell, ceo do grupo WPP. Havia também executivos de empresas de infraestrutura e diversos outros setores importantes no Brasil.

“A nata estava lá”, disse o participante mencionado inicialmente. Barbosa repetiu a sua mensagem de estabilidade fiscal e estabilização da economia, e disse que há uma mudança de atitude no País, favorável ao empreendedorismo, um tema levantando por Sorrell. (Fernando Dantas e Fernando Nakagawa – enviados especiais a Davos).

 

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