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BC atento ao cenário externo

Ata do Copom mantém tom "dovish" (menos preocupado com a inflação) do comunicado divulgado logo após a reunião de setembro, mas BC indica que está ligado nos efeitos que o cenário internacional pode ter no câmbio (e este na inflação).

Fernando Dantas

25 de setembro de 2019 | 15h44

A ata da reunião de setembro do Copom, divulgada hoje, confirma que a trajetória da Selic é de queda. Na visão de diversos analistas, a ata – levando em conta o conjunto das últimas projeções do modelo do Banco Central, em conjunção com a análise de cenários pelo Copom e a descrição do balanço de riscos – indica (mas não garante) a possibilidade de que a taxa básica caia abaixo de 5% ao final deste ciclo de cortes.

Há o complicador, entretanto, do cenário externo, e de seus impactos sobre a taxa de câmbio (e desta para a inflação, obviamente).

Mantendo o tom do comunicado divulgado imediatamente após a decisão de cortar a Selic em 0,5 ponto porcentual, para 5,5%, na quarta-feira passada, há sinais na ata de que preocupação do BC com o cenário externo em nada diminuiu, quiçá se aguçou.

Na ata anterior, relativa à reunião de julho, está escrito, de forma bem direta, que “o cenário externo mostra-se benigno”, e a razão são as políticas monetárias expansionistas dos principais bancos centrais. Em seguida, vem a ressalva de que “os riscos associados a uma desaceleração da economia global permanecem”.

Na ata da reunião de setembro, no mesmo parágrafo terceiro, o que era descrito como benigno passa a ser tratado como “relativamente favorável” – talvez aqui o mais relevante seja o “relativamente”. E, a ressalva é reforçada, quando se menciona o risco de uma desaceleração global “mais intensa”.

O canal de uma piora externa para o cenário inflacionário no Brasil é via a redução do apetite de risco internacional, que pode desvalorizar o real e, a depender do tamanho da depreciação, provocar pressões relevantes na inflação doméstica.

A última leva de projeções do modelo do BC, entretanto, é confortável, como nota Roberto Padovani, economista-chefe do Banco Votorantim.

Com Selic a 5% no final de 2019 e neste nível até o fim de 2020, o IPCA do ano que vem é de 3,6%, caso o câmbio feche este ano em R$ 3,9 e fique aí até o fim do próximo. O mesmo cenário, com a única mudança de que o câmbio é de R$ 4,05, leva a um IPCA de 3,8% em 2020.

Padovani nota que essas projeções indicam que, mesmo se o câmbio nesse horizonte longo for de R$ 4,20, próximo do patamar atual, a meta de 4% para o IPCA no próximo ano provavelmente pode ser cumprida.

Daí que ele vê o corte da Selic em 0,5 pp em outubro (para 5%) praticamente na caçapa, salvo uma surpreendente grande piora internacional que produzisse uma desvalorização a curto prazo muito maior que a atual.

Como o cenário de final de ano do Votorantim e de câmbio de R$ 3,8, Padovani vê espaço para a Selic terminar o ano abaixo de 5%, mais precisamente em 4,75%.

Um analista bastante conhecido no mercado também destaca o bom balanceamento da ata quando se trata do cenário internacional.

O BC mantém o tom favorável à continuidade da redução da Selic, o que embasa as apostas de que a taxa básica possa cair abaixo de 5%, mas não negligencia os riscos externos e os potenciais efeitos do câmbio na inflação.

Assim, a autoridade monetária reforça a percepção de que a extensão do ciclo de corte é condicional ao que seja consistente com os modelos e as expectativas. Já a menção na ata de que o efeito FGTS no crescimento já está nas contas do BC afasta a ideia de que este pode ser “surpreendido” por isso e diminuir sua predisposição ao corte de juros.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 24/9/19, terça-feira.

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