BC cauteloso reforça o que já foi escrito

Fernando Dantas

08 de agosto de 2014 | 14h05

O diretor de Política Econômica do Banco Central (BC), Carlos Hamilton Araújo, concentrou-se no passado na sua apresentação na quinta-feira (7/8/14) do Boletim Regional Rio de Janeiro, na sede do Banco Central (BC) no Rio. Ele evitou dar qualquer pista sobre os próximos passos da política monetária que fosse além da recente comunicação escrita, em que o Copom indicou que a atual estratégia é a de manter a Selic, a taxa básica, em 11%, o que seria compatível com a convergência da inflação para o centro da meta (4,5%) a partir da porção final de 2015.

Apesar disso, alguns analistas ainda não descartaram totalmente algum corte da Selic em 2014. Nesta visão, a mão do BC seria forçada por dados de atividade cada vez piores, por pressões do Palácio do Planalto e até eventualmente por dificuldades menos corriqueiras no mercado de crédito (a forma singular da recente liberação de compulsórios, além de ter trazido perplexidade por caminhar na direção contrária do discurso de manutenção da Selic, preocupou alguns analistas quanto a hipotéticos problemas de liquidez).

Ao se ater de forma rigorosa à comunicação escrita recente do Banco Central, Hamilton pode de certa maneira ter indicado que tudo o que foi afirmado é válido na perspectiva do momento em que foi afirmado, na opinião de um experiente analista de mercado.

Quando questionado sobre a projeção de crescimento de 1,6% do Banco Central (BC) que consta do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de junho, o diretor de Política Econômica foi estritamente protocolar. Apesar de ser uma previsão hoje considerada irrealista, comparada às expectativas de mercado, Hamilton confirmou que se trata da projeção oficial do Banco Central até que saia o RTI de setembro, quando o crescimento do PIB este ano pode ser revisado em qualquer direção, segundo o diretor.

Para a maior parte dos observadores do mercado, o BC sabe que muito provavelmente a expansão do PIB de 2014 será bem abaixo de 1,6%. Assim, o momento de uma provável revisão para baixo no RTI de setembro poderia ser também a hora de o Copom se reposicionar estrategicamente, caso haja necessidade.

Hamilton também foi cauteloso quando perguntado sobre a supressão de referências à “resiliência” da inflação nas últimas declarações públicas do presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini. O próprio Hamilton não falou em resiliência ou resistência durante sua exposição do Boletim Regional no Rio de Janeiro (e na entrevista à imprensa que se seguiu). Ao responder, o diretor chamou a atenção para o fato de que a inflação mensal vem caindo – as expectativas para agosto apontam algo em torno de um sexto do IPCA de 0,92% de março.

A resposta, entretanto, refere-se à inflação passada e de curtíssimo prazo, e nada diz sobre a resiliência, que tem mais a ver com a tendência da inflação e com as expectativas.

Apesar das sucessivas reiterações do BC sobre a estratégia de manutenção da Selic que “entrega” a convergência (bem mais adiante) da inflação para a meta, o mercado deve continuar muito atento à evolução dos dados de atividade, e seu possível impacto no mercado de trabalho. Alguns analistas acham que um PIB do segundo trimestre em território mais claramente negativo, como algo abaixo de 0,5% negativo, poderia forçar o BC a rever sua estratégia.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 8/8/14, quinta-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.