BC de Tombini não gosta de parecer falcão

Para os que esperavam uma afirmação de ortodoxia por parte do Copom no momento em que acelerou o ritmo de alta da Selic de 0,25 para 0,5 ponto porcentual, o comunicado da reunião foi uma decepção.

Fernando Dantas

07 Dezembro 2014 | 23h47

Para os que achavam que, com a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda e a perspectiva bem mais ortodoxa que isto deu à política econômica, o Banco Central (BC) fosse aproveitar para abandonar de vez sua imagem de “pombo”, o comunicado da decisão de quarta-feira (3/12/14) do Copom decepcionou. Como em outros momentos da gestão de Alexandre Tombini, presidente do BC, o Copom usou a comunicação para mitigar o sentido que poderia ser deduzido da sua ação.

Assim, o ritmo de elevação da Selic foi aumentado de 0,25 para 0,5 ponto porcentual, mas o comunicado usou as expressões “neste momento” e “parcimônia” – além de ter relembrado os “efeitos cumulativos e defasados da política monetária” – provavelmente para sinalizar que o ciclo de aperto não deve se prolongar muito e a sua intensidade não deve ser das maiores.

Para Tomás Brisola, economista-chefe da gestora BBM Investimentos, “o comunicado quis afastar a ideia de um choque de juros, de que o BC possa acelerar o ritmo para 0,75 ponto porcentual, por exemplo”. O economista mantém sua projeção de mais uma elevação de 0,5 e outra de 0,25, levando a Selic a 12,50%.

Mas, para Brisola, com o comunicado de ontem, “se o BC fizer algo diferente agora, não vai ser 0,75, vai ser 0,25”. Ele acha que os sinais de política fiscal mais dura em 2015 e a fraca atividade podem ter levado o BC a emitir os sinais do comunicado de moderação no aperto monetário.

Segundo Tony Volpon, diretor da área de mercados emergentes nas Américas do Nomura em Nova York, o comunicado buscou se contrapor à tendência altista dos juros de curto prazo precificados pelo mercado futuro, de uma elevação de mais de 0,5 ponto porcentual na reunião do Copom desta semana e que poderia evoluir para algo entre 0,5 e 0,75 na reunião de janeiro.

Em relatório divulgado hoje, Volpon escreve que “o Banco Central parece estar sinalizando que quer que os mercados precifiquem uma elevação entre 0,25 e 0,5 na reunião de janeiro”. O Nomura prevê mais uma alta de 0,5 ponto porcentual em janeiro, para 12,25%, seguida de pausa.

José Márcio Camargo, economista-chefe da gestora Opus e professor da PUC-Rio, acha que “o BC joga contra o seu próprio time quando passa a ideia de que vai aumentar menos no futuro”. O economista considera que a tendência, com essa postura de comunicação da autoridade monetária, é de que as taxas de juros curtas caiam e as longas subam.

Para Camargo, “o BC vai acabar aumentando mais do que gostaria, como também pareceu acontecer no ciclo anterior (entre os meses de abril de 2013 e 2014)”. Assim, o economista mantém sua projeção de que a Selic suba até 13%. Ele vê pressões inflacionárias vindo da desvalorização do câmbio, do realinhamento dos preços administrados e do fato de que a inflação de serviços ainda se mantém entre 8% e 9% ao ano.

Camargo ficou particularmente intrigado com o trecho do comunicado que mencionou os “efeitos cumulativos e defasados da política monetária”. Ele notou que um trecho deste tipo foi eliminado na última ata, o que o levou a pensar que, para o BC, os impactos do ciclo terminado em abril deste ano já haviam terminado. Agora, ele tem dúvidas se o BC ainda se refere ao ciclo anterior ou já estaria falando da alta iniciada em outubro.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 4/12/14, quinta-feira.