BC mudará “balanço de riscos”?

O mercado dá como favas contadas que Copom manterá Selic em 6,5% na reunião que acaba hoje (6/2). Mas uma corrente aposta que o comunicado não dirá mais que o risco de a inflação à frente ficar acima do previsto é maior do que o de ficar abaixo, como consta na ata da reunião de dezembro.

Fernando Dantas

06 de fevereiro de 2019 | 10h57

A grande aposta do mercado é de que o Copom manterá a Selic em 6,5% na reunião que termina hoje. Mas o que a autoridade monetária deverá dizer no comunicado pós-reunião?

O mercado está embalado numa onda de otimismo, reforçada recentemente pela sensação de que uma boa reforma da Previdência será aprovada e pelo “cavalo de Powell” na política monetária norte americana (trocadilho entre Jerome Powell, chairman do Fed, e o que teria sido o cavalo-de-pau “dovish” na comunicação do BC americano após a reunião do FOMC, o comitê de política monetária, em 29 e 30 de janeiro).

Esse otimismo não faz com que se preveja um corte imediato da Selic, como já pedem alguns economistas, mas é suficiente para alimentar a crença de uma corrente de que a taxa básica pode cair até o final deste ano.

Aparentemente, o BC brasileiro não tem nada a ganhar dando indicações mais precisas sobre o próximo movimento da Selic num cenário que ainda tem muitas incertezas. Mas há um aspecto da sua comunicação no qual dificilmente o Copom poderá evitar de mexer no comunicado e/ou na ata que se seguirão à atual reunião: o balanço de riscos.

Na ata da reunião do Copom de dezembro, está escrito que “o Comitê ressaltou que os riscos altistas para a inflação permanecem relevantes e seguem com maior peso em seu balanço de riscos. Dessa forma, os membros do Copom concluíram que persiste, apesar de menos intensa, a assimetria de riscos para a inflação”.

Na mesma ata, o Copom avaliou que houve uma elevação do risco de o nível de ociosidade elevado causar uma trajetória inflacionária abaixo do esperado e um arrefecimento do risco de que uma frustração sobre as reformas afete o prêmio Brasil e, em consequência, pressione a inflação. Quanto ao risco de deterioração do cenário externo para economias emergentes, que também é do tipo que joga a inflação para cima, a ata de dezembro não diz que diminuiu nem que aumentou.

O que interessa agora, evidentemente, são as mudanças nesses riscos entre a reunião de dezembro e a atual, de fevereiro. Analistas como Flávio Serrano, economista-sênior do Haitong Bank, apontam o fato de que a mudança mais intensa e visível é no risco do cenário externo, que mudou para melhor depois que o Fed sinalizou uma postura bem mais dovish na reunião do FOMC de janeiro.

Em relação a outros componentes do balanço de riscos do Brasil, as mudanças parecem mais sutis, mas, se vão para algum lado, é mais para o positivo (no sentido de inflação baixa). O otimismo sobre as reformas cresceu, ainda houve surpresas inflacionárias para baixo (embora muito menores do que as de igual período de 2018) e retomada continua muito gradual (mas sem nenhum fato novo contundente neste sentido que tenha surgido da reunião de dezembro para cá).

De qualquer forma, há a expectativa de que o Copom indique que o seu balanço de riscos mudou numa direção baixista (o que não quer dizer que tenha se tornado baixista). Serrano, em particular, projeta que tenha mudado de uma assimetria em direção à alta de inflação (tal como consta da ata de dezembro) para um nível de neutralidade.

Segundo Alexandre Póvoa, sócio fundador economista-chefe da gestora Canepa, “o Copom vai ter que fazer muito esforço para justificar uma não mudança do balanço de riscos”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/2/19, terça-feira.