BC não precisa de ajuda para estimular

Equipe econômica faz pacote de incentivo à retomada "para inglês ver" e tem suas razões. É mais racional deixar a tarefa nas mãos do Banco Central, que tem muita Selic para cortar, mas tem que zelar pelo controle da inflação.

Fernando Dantas

20 de dezembro de 2016 | 18h37

O desapontamento com a recuperação da economia brasileira, que demora muito a sair da maior e mais profunda recessão da história documentada, está levando naturalmente a um frenesi de cobranças e anúncios de medidas para reacelerar a atividade.

O exemplo mais óbvio é o recente pacote anunciado pelo governo. Ele contém algumas medidas, como mais um programa de regularização tributária e a repartição dos lucros do FGTS com os trabalhadores, que a equipe econômica parece ter aceitado só depois de diluir ou modificar as propostas originais, que não eram do seu agrado.

Adicionalmente, a equipe de Henrique Meirelles espertamente introduziu – como parte da agenda “façam alguma coisa” cobrada pela sociedade e pelo sistema político em função da persistência da recessão – medidas de racionalização econômica e facilitação de negócios, como mudanças no cadastro positivo, simplificação de abertura e fechamento de empresas, diferenciação de preços entre formas de pagamento no comércio, contratação por hora trabalhada e jornada móvel, etc.

Finalmente, aproveita-se a oportunidade também para, segundo relatos da imprensa, criar no próximo ano uma “Secretaria do Crescimento” que, a crer pelo cogitado titular, o competente economista João Manoel Pinho de Melo, deve se voltar muito mais para a agenda estrutural do que para o problema de curto prazo de relançar a economia.

De tudo isso fica claro que Meirelles e seus auxiliares, assim como o Banco Central, no fundo não compartilham da ideia de que, para além da queda da taxa de juros, a Selic, “alguma coisa tem que ser feita” para reacelerar a economia. Entretanto, diante do fato político de que não dá para não fazer nada, aceitaram com modificações algumas sugestões, vetaram outras e jogaram na mesa itens da agenda estrutural.

Há lógica nessa reação da equipe econômica. Afinal, o grande problema atual é a retomada da economia sem comprometer a convergência da inflação para a meta. Por razões sociais e políticas óbvias, o presidente do BC, Ilan Goldfajn, vem deixando claro que, neste ponto, a preocupação com a atividade tornou-se particularmente importante para a autoridade monetária.

Mas Ilan sabe também que de nada adianta reativar a economia se o recente ganho de ancoragem das expectativas inflacionárias for perdido no processo. Porque é precisamente a grande melhora obtida no front da política monetária que pode permitir que, com um intenso e prolongado ciclo de corte dos juros, dois fundamentais objetivos sejam cumpridos com a mesma cajadada: a reativação da economia e a colocação do juro real numa trajetória consistente e duradoura de queda.

Ambos os objetivos se combinam para dar grande contribuição à resolução do maior problema econômico brasileiro da atualidade: a trajetória insustentável da dívida pública. Obviamente, eles dependem também do sucesso na implementação da estratégia fiscal, incluindo a espinhosíssima tarefa de aprovar a reforma da Previdência.

De qualquer forma, o BC tem plena consciência da importância de derrubar o juro real para atingir aquele duplo objetivo, e, ao mesmo tempo, sabe que uma pré-condição fundamental é não comprometer o resgate de credibilidade da política monetária que está colocando a inflação em rota de convergência para a meta. Assim, ninguém melhor que o próprio BC está habilitado a conduzir essa delicada sintonia entre aliviar a demanda sem perder os ganhos anti-inflacionários (tarefa particularmente difícil diante da tenaz resistência da inflação de serviços, mesmo com a catastrófica recessão em curso).

Adicionalmente, o BC tem em suas mãos não só o instrumento por excelência para conduzir esse trade-off, a Selic, como também dispõe de um enorme espaço para utilizá-lo, dada a elevadíssima taxa de juro real brasileira.

Em resumo, para que atrapalhar o trabalho de sintonia fina do Copom com a tentativa de reativar a demanda por outros canais cujos efeitos são muito menos previsíveis e em relação aos quais o BC não pode fazer, de forma autônoma e ágil, a regulagem, como no caso da Selic?

Afinal, se o BC considerar que a demanda está mais enfraquecida do que o ideal, do ponto de vista do duplo objetivo de reativar a economia sem perder os ganhos anti-inflacionários, o Copom tem amplo espaço para acelerar e aprofundar o ciclo de corte da Selic. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/12/16, segunda-feira.

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