BC, PIB e Previdência

Ritmo da retomada e chances da reforma da Previdência no Congresso serão determinantes para a velocidade do corte de juros pelo Banco Central.

Fernando Dantas

14 de março de 2017 | 17h28

A grande surpresa positiva do IPCA de fevereiro de 0,33% – mais uma na fieira de inflações mais baixas do que as projeções desde o segundo semestre do ano passado – imediatamente esquentou o debate sobre a possibilidade de o Copom aumentar de 0,75 ponto porcentual (pp) para 1 pp a prevista redução da Selic na reunião de 11 e 12 de abril.

Em relatório publicado esta manhã depois da divulgação do IPCA, o consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central (BC), observa que a eventual decisão de acelerar o ritmo de corte da taxa básica deve dar maior peso à atividade – desapontamento com a retomada poderia levar ao 1 pp – do que à inflação de curto prazo.

A lógica é que, mesmo com uma nova rodada de queda das projeções do IPCA de 2017 – a previsão mediana de mercado hoje é de 4,38% – em função do bom número de fevereiro, o alvo principal no horizonte da política monetária já é 2018. Neste caso, as expectativas de mercado estão ancoradas na meta de 4,5%, mas Schwartsman nota que sinais de que a recuperação não está vindo poderiam criar o risco de que também em 2018 a inflação ficasse abaixo da meta. Isto, por sua vez, levaria o BC a pisar no acelerador.

Mas há também outra consideração importante a ser levada em conta na hora de se pensar em acelerar o ritmo do ciclo de baixa da Selic: a reforma da Previdência. A próxima reunião do Copom provavelmente acontecerá no auge das negociações da reforma, já com vistas à votação dos deputados federais no plenário. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse recentemente que quer o projeto votado em 15 de abril, ou no máximo até 10 de maio.

Recentemente, tem sido forte a movimentação no Congresso para “aguar” a reforma da Previdência, incluindo o PSDB, que se confunde cada vez mais com as siglas fisiológicas, em abandono ao seu histórico modernizante e reformador.

O gestor Alexandre Póvoa, sócio e economista-chefe da Canepa, nota que a ênfase na comunicação recente do Banco Central na necessidade do ajuste fiscal e na questão da taxa de juro real neutra são sinais de que a reforma da Previdência deve estar ocupando um lugar central nas preocupações do Copom.

O BC deixou claro que a dimensão total do atual ciclo de afrouxamento monetário – isto é, a Selic final quando for concluída a sucessão de cortes – depende do juro real neutro. Quanto mais baixo ele for, menor a Selic ao fim do ciclo. Evidentemente, se o juro neutro for menor do que se pensava, e o caminho até lá mais longo, faz mais sentido acelerar o ritmo de corte para chegar mais rápido ao porto final (mesmo que este possa ser uma Selic real abaixo da neutra por algum tempo, para ajudar a retomada).

Assim, o BC poderia se arriscar a levar uma “bola nas costas” se acelerasse o ritmo para 1 pp em abril e pouco tempo depois o Congresso desfigurasse a reforma da Previdência, o que poderia fazer com que o juro neutro percebido aumentasse e, junto com ele, as expectativas inflacionárias para 2018 e adiante. Evidentemente, se até a reunião de abril as negociações da reforma caminharem no sentido de sedimentar as expectativas de que uma importante mudança na Previdência será aprovada, isto pode ter o efeito inverso e ser um fator favorável à aceleração do ritmo de corte da Selic.

Ainda assim, como nota Póvoa, “um corte de 1 pp antes da votação em plenário poderia fazer os políticos se acomodarem”, isto é, acharem que está tudo indo tão bem que talvez seja possível fazer mais concessões populistas a grupos de pressão na votação da reforma. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/3/17, sexta-feira.

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