BC preocupado com fiscal e teto da meta

Ata da reunião de novembro do Copom foi considerada 'hawkish', isto é, conservadora e preocupada com a inflação, pelo mercado.

Fernando Dantas

04 de dezembro de 2015 | 21h22

A ata da reunião do Copom de novembro, divulgada hoje (3/12/15, quinta-feira), foi considerada ‘hawkish’ (conservadora) pelo mercado e reforçou a ideia de um aumento da Selic na reunião de 19 e 20 de janeiro. Quem ainda prevê estabilidade, ficou agora na dúvida, ou acha que outros fatores entrarão em cena para impedir a elevação. Quem já previa que a taxa básica subiria depois do surpreendente resultado da reunião de novembro, com dois votos dissidentes pela alta de 0,5 ponto porcentual, ficou mais seguro na sua aposta.

Alexandre Póvoa, presidente e sócio fundador da gestora Canepa, em contraste com muitos outros analistas, prevê que a Selic não subirá em janeiro. A razão, no entanto, é a turbulência política causada pela abertura do processo de impeachment.

“Acho que dificilmente no meio de uma confusão política, que tende a crescer agora, o BC vai subir juros, seria uma atitude autista”, ele diz.

Além disso, Póvoa considera que o combustível inflacionário no momento é muito mais de inércia do que de demanda, que despencou com a recessão. Assim, o efeito de um pequeno ciclo da alta da Selic, como se projeta no mercado, seria para ele inócuo. “Para ter impacto, teria que ser um choque de juros, e aí estamos falando de algo entre cinco a dez pontos percentuais de alta da Selic”, comenta.

Ainda assim, o economista acha que a ata foi ‘hawkish’, embora menos do que imaginava. Ele nota a preocupação na ata em não se estourar o teto da meta, de 6,5%, em 2016, e a confiança do BC de levar o IPCA a 4,5% em 2017. Dentro da lógica de evitar que a inflação fure o teto no ano que vem, o ciclo, no qual não acredita, teria que começar logo, ele observa.

Flávio Serrano, economista do Haitong Bank, destaca a ênfase da ata nas questões fiscais. Para ele, “as chances de subirem a Selic em janeiro aumentaram bastante”. O Haitong estava com um ‘call’ (projeção) de manutenção, mas agora vê um cenário complexo e em aberto para a próxima reunião. Seus economistas ainda não fecharam uma nova projeção, mas estão atentos à elevação da probabilidade de alta.

Serrano chama a atenção para o longo intervalo até a reunião de janeiro, de 48 dias a partir de hoje (até o segundo dia do encontro, quando a decisão é tomada). Para o economista, esse período longo, aliado a todas as complicações econômicas e políticas em curso, traz mais incerteza sobre o próximo passo do Copom.

Um analista de uma gestora no Rio, que preferiu não se identificar, observa ainda que o parágrafo 28 da ata confirmou a sua visão de que a discussão da ata seria mais sobre o timing do que sobre a necessidade de um novo ciclo de alta.

Nesse trecho do documento, primeiro se nota que dois membros do Copom (Tony Volpon, diretor de Assuntos Internacionais, e Sidnei Corrêa Marques, diretor de Organização do Sistema Financeiro) consideraram oportuno ajustar de imediato as condições monetárias, isto é, elevar a Selic, “de modo a reduzir os riscos de não cumprimento dos objetivos do regime de metas para a inflação”. Em seguida, a ata acrescenta que “a maioria dos membros do Copom considerou monitorar a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião para, então, definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária”.

Para o analista a última frase “é um código para encerrar a pausa e dar início a um novo ciclo de alta”. A sua instituição prevê três altas de 0,5 e uma de 0,25 da Selic, com o BC levando a taxa básica para 16%. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 3/12/15, quinta-feira.