BC quer preservar ganho de credibilidade

Fernando Dantas

19 de julho de 2013 | 19h14

A ata da reunião da semana passada do Comitê de Política Monetária (Copom) foi bem recebida pelos analistas. Houve a percepção de um colegiado que se mantém focado na inflação, mas não cego à piora das expectativas de crescimento, e que desta vez soube dar um tom equilibrado e firme à sua comunicação. Para alguns, inclusive, como Tony Volpon, diretor executivo de pesquisa de mercados emergentes das Américas do Nomura, a ata pode ser considerada bastante ‘hawkish’ (conservadora), quando se lê mais atentamente alguns trechos e entrelinhas.

A ata fortaleceu a percepção de um ciclo de altas da Selic que vai se estender por mais duas ou três reuniões, levando a taxa básica para algo como 9,25% ou 9,5%.

O consultor Alexandre Schwartsman, por exemplo, refez sua projeção do ciclo em função da ata divulgada esta semana, elevando o ponto de chegada de 8,75% para 9,25%. Em relatório desta manhã, ele destaca o trecho em que Copom diz que os efeitos secundários da depreciação do real “podem e devem ser limitados pela adequada condução da política monetária”.

O economista, ex-diretor do BC, aponta o fato de que, mesmo com menor previsão de alta de preços administrados, em função da contenção das tarifas de ônibus, as projeções de inflação em 2013 e 2014 não se mexeram, e até subiram no caso do cenário de referência do próximo ano. Para Schwartsman, isto deriva da desvalorização, que “coloca o Copom numa situação mais delicada em relação à inflação, apesar da visão mais ‘dovish’ (menos conservadora) sobre a atividade”.

Muito da percepção do mercado de que o Copom está mais preocupado com o crescimento (isto é, mais dovish) vem do trecho da ata em que, depois de reafirmar o seu prognóstico já conhecido de atividade econômica em recuperação em 2013 e 2014, o BC faz o seguinte alerta: “No entanto, o Comitê nota que a velocidade de materialização desses ganhos esperados pode ser contida caso não ocorra reversão tempestiva do declínio que ora se registra na confiança de firmas e famílias”.

Em outras palavras, o Copom estaria reconhecendo riscos que podem atrapalhar o seu cenário de retomada gradual da atividade econômica.

Volpon, do Nomura, tem uma intepretação um pouco diferente. Ele nota que o BC fala da contenção da “velocidade” da recuperação, mas não de qualquer ameaça à retomada em si mesma.

Além disso, o economista observa que parágrafos sobre queda da taxa de juros neutra e sobre superoferta de poupança externa, que constavam de atas anteriores, foram removidos desta última. Para Volpon, a limpeza do que qualifica como “entulho do período heterodoxo” significa o reconhecimento por parte do BC de que – como o economista redigiu no seu relatório desta manhã – “as perspectivas de normalização monetária nos Estados Unidos elevarão as taxas (de juros) neutras no Brasil” e “os fluxos de investimentos para os mercados emergentes vão diminuir daqui para frente”.

Em conversa com a coluna, Volpon disse que o BC, de certa forma, “estaria dando bye-bye à ideia de Selic a 7% e de taxa de juro real de 2%”, que foram conquistas muito celebradas pelo governo da presidente Dilma Rousseff na época em que se antevia o sucesso da chamada “nova matriz macroeconômica”.

Outra má notícia política sutil da ata, na visão do economista da Nomura, está no trecho em que o Copom comenta a “natural e esperada correção de preços relativos”, associada à desvalorização do real. Para Volpon, este ajuste nada mais é do que o recuo do preço dos bens não comercializáveis internacionalmente (non-tradables) relativamente aos negociáveis (tradables). Tipicamente, a correção dos non-tradables afeta fundamentalmente os salários reais.

Em outras palavras, o que o BC diz nas entrelinhas, na visão do analista, é que a desvalorização cambial preanuncia o afrouxamento do mercado de trabalho e o aumento do desemprego que a maior parte dos economistas vê como elemento decisivo para conter a inflação – principalmente no seu pior componente na história recente, que é a inflação de serviços.

Esta coluna nota também que a ata contém trechos que soam quase como recomendações de política fiscal e creditícia do BC para o resto do governo. Por exemplo, quando o Copom “nota que a geração de superávits primários compatíveis com as hipóteses de trabalho contempladas nas projeções de inflação, além de contribuir para arrefecer o descompasso entre as taxas de crescimento da demanda e da oferta, solidifica a tendência de redução da razão dívida pública sobre o produto e a percepção positiva sobre o ambiente macroeconômico no médio e no longo prazo”.

Em outro trecho, o Copom “considera oportunas iniciativas no sentido de moderar concessões de subsídios por intermédio de operações de crédito”.

Seja qual for a visão sobre a ata – equilibrada ou hawkish –, é certo que o Copom está zelando com muita seriedade pela melhora da sua credibilidade a partir de abril. Depois de iniciar, no início daquele mês, o atual ciclo de aperto monetário com um aumento tímido de 0,25 ponto porcentual da Selic, o BC endureceu o tom da comunicação a partir do final de abril.

Com a piora do cenário externo, há a impressão de que o governo desatou as mãos do Copom e conferiu mais autonomia para o trabalho técnico do Banco Central. O desgaste político da inflação corrosiva de salários também pode ter entrado nesta barganha.

“Estou muito impressionado com o BC, que já não é o mesmo de 2012 – eles tiraram o entulho colocado na ata durante o período heterodoxo, e estão com uma comunicação mais simples, mais focada na inflação e em trazê-la para mais perto do centro da meta”, diz Volpon.

Com certeza, declarações como essa devem soar como música aos ouvidos dos membros do Copom, e os seus participantes provavelmente vão se esforçar para manter o pedaço já recuperado de reputação. É certo que eles saibam muito bem o custo de tê-la perdido.

Esta coluna foi publicada originalmente na AE-News/Broadcast

fernando.dantas@estadao.com

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