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BC reafirma plano de voo

Na ata da reunião de setembro, BC reforçou "prescrição" futura de não elevar Selic se expectativas e projeções de inflação ficarem comportadas e regime fiscal for mantido, mas "assimetricamente" deixou a porta aberta para um pequeno ajuste para baixo, se atividade e inflação se mantiverem muito deprimidas.

Fernando Dantas

23 de setembro de 2020 | 09h40

O Banco Central (BC) não piscou na ata da reunião de setembro, divulgada hoje, assim como se manteve frio e impassível no comunicado e na sua comunicação recente.

A alta da alimentação e a demanda aquecida por comida e outros itens de consumo popular, na esteira da liberação das parcelas do auxílio emergencial, assim como a angústia fiscal refletida na curva de juros, também por causa do auxílio e de outros programas de suporte da economia atingida pela pandemia – nada disso parece ter alterado o plano de voo da autoridade monetária.

Ou pelo menos foi isso que o Copom quis sinalizar na ata e na comunicação recente.

A ata martelou pontos já comunicados, com ênfase na “prescrição futura” (forward guidance).

Resumidamente, o BC sinalizou que não vai elevar a Selic a partir do ponto em que ela estacionou na reunião de setembro, 2%, a não ser que o regime fiscal seja quebrado, ou que as expectativas inflacionárias de longo prazo se desancorem, ou que as expectativas e projeções da inflação do cenário básico do Copom, no horizonte relevante da política monetária, estejam “suficientemente próximas” da meta.

Alexandre Ázara, economista-chefe e sócio da gestora Mauá Capital, nota que, em relação a 2021, ano principal do cenário relevante de política monetária, a ata aponta que a expectativa de IPCA do Focus está em 3%, enquanto a projeção do BC no cenário híbrido está em 2,9%.

Como a meta de 2021 é de 3,75%, há uma expressiva diferença entre ela e a expectativa e a projeção. Logo, a condição de que estas não estejam “suficientemente próximas” da meta está confortavelmente atendida.

Ázara acrescenta que, no caso de 2022, o mesmo não ocorre. A meta é de 3,5%, a expectativa Focus também de 3,5%, e a projeção do cenário híbrido do BC é de 3,4%.

O ano de 2022 já está no horizonte relevante da política monetária, porém “em grau menor”, comparado a 2021. O economista observa que, se as mesmas expectativas e projeções para 2022 estiverem presentes em junho de 2021, quando o ano subsequente se torna o principal do “horizonte relevante”, o BC já estará começando a elevar a Selic.

É apenas uma suposição, claro, mas serve para dar uma ideia da possível durabilidade da atual “prescrição futura”.

Quantas às outras condições de manutenção da prescrição futura, uma delas, a ancoragem das expectativas de longo prazo, é objetiva. E está acontecendo em termos das projeções do Focus (embora não na inflação implícita entre títulos pós e prefixados).

A outra, porém, a manutenção do regime fiscal, tem um quê de julgamento, e mexe com o principal temor do mercado, que é a questão das contas públicas.

Aqui, a ata foi assertiva e lacônica: “O regime fiscal não foi alterado”.

De fato, o teto constitucional ainda está lá, mas a tônica da economia política nesta saída de pandemia está longe ainda de assegurar que a política fiscal a partir de 2021 será responsável.

Tanto que a curva de juros empinou entre as duas últimas reuniões do Copom, apesar do esforço do BC, via prescrição futura, de achatá-la de volta.

Mas o BC, pelo visto, preferiu não demonstrar nenhum acréscimo de preocupação em relação ao tema fiscal.

Assim, repetiu na ata de setembro a formulação protocolar de outras atas, de que “alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas podem elevar a taxa de juros estrutural da economia”.

Em relação a corte adicional da Selic, a permanência dessa possibilidade com “espaço pequeno” e “gradualismo adicional” combina-se com a assimetria da prescrição futura de não elevar a Selic (mantidas as condições mencionadas) para completar o plano de jogo do Copom, reforçado pela ata.

Por um lado, o BC mostrou incerteza quanto à recuperação econômica, preocupado com o fim dos auxílios emergenciais a partir do final do ano – o que poderia sugerir algum novo pequeno corte da Selic à frente.

Por outro, o Copom voltou a repisar na ata seu desconforto em continuar a reduzir a Selic rumo a níveis próximos a zero. Tanto por risco de instabilidade nos preço de ativos (associada a incertezas fiscais) quanto por problemas em mercados e setores, com “potencial impacto sobre a intermediação financeira (e aqui a volatilidade do preço de ativos também atrapalha)”.

Em resumo, juro muito próximo de zero pode trazer perturbações numa economia que viveu décadas com taxas muito elevadas, na visão do Copom.

Essa seria uma razão para achar que a possibilidade não descartada de mais um pequeno ajuste para baixo da Selic é difícil de se concretizar.

Outras razões na mesma direção – como um possível aumento do temor do BC em relação à questão fiscal, ou o compartilhamento com alguns analistas da preocupação propriamente inflacionária com a alta da inflação implícita na comparação de títulos pós e prefixados – não constam da ata.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 22/9/2020, terça-feira.

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