BC tenta “DR” com o mercado

No parágrafo 17 da ata da reunião de junho do Copom, divulgada hoje, Banco Central diz ao mercado como quer ser entendido em relação aos seus compromissos e sinais. Resta ver se o mercado será um parceiro compreensivo.

Fernando Dantas

22 de junho de 2021 | 21h05

A ata da reunião do Copom de junho, divulgada na terça, 22/6, não só elevou o teor “hawkish” (mais preocupado com a inflação) do comunicado pós-reunião, como serviu para o Banco Central (BC) tentar colocar os pingos nos ‘is’ sobre a correta interpretação das suas sinalizações sobre passos futuros.

Como se sabe, a comunicação é um dos aspectos mais criticados da atuação do atual BC. De fato, a autoridade monetária fez sinalizações, incluindo um forward guidance formal, que foram revertidas muito rapidamente.

Compreende-se até certo ponto. A pandemia do coronavírus provocou um fechamento inédito da economia global, com efeitos fortíssimos e nunca dantes navegados tanto pelo lado da demanda quanto da oferta. As birutas da atividade e da inflação nunca giraram tão loucamente como desde o primeiro semestre do ano passado.

Mas se há tanta incerteza, por que sinalizar o próximo passo e se arriscar a não cumprir o que indicou? Essa foi exatamente a questão que alguns analistas colocaram recentemente à coluna, a propósito da comunicação do BC desde o início da pandemia.

O parágrafo 17 da ata de junho busca responder a essa pergunta.

O parágrafo deve ser lido em conjunção com os dois anteriores. Nos parágrafos de 15 a 17, o Copom revela que cogitou “uma redução mais tempestiva dos estímulos monetários já nesta reunião”, fórmula que todo o mercado lê como “cogitou aumentar a Selic em 1 ponto porcentual (pp)”, para 4,5%, em vez de elevar em 0,75pp, para 4,25%, como ocorreu.

Nos parágrafos 16 e 17, o Copom explica por que acabou ficando com a alta menor da Selic.

No 16, o comitê lista os motivos mais convencionais: ganhar tempo para avaliar melhor a evolução dos preços inerciais de serviços e das expectativas de inflação, tanto Focus como a implícita nas cotações de títulos pré e pós-fixados.

É no parágrafo 17 que o Copom inova e abre uma espécie de “DR” (discussão de relação, na gíria relativa a relacionamento de casais) com os críticos da comunicação do BC.

Segundo a autoridade monetária, a questão de elevar em 0,75pp ou 1pp a Selic – que se coloca tanto em relação à revelação feita sobre as discussões na reunião de junho quanto ao que o próprio Copom deixou explícito no comunicado e na ata relativamente à reunião de agosto – é a oportunidade para “esclarecer a distinção entre transparência sobre as projeções condicionais e intenções invariantes de política monetária”.

Em outras palavras, o BC não só enfatizou no parágrafo 17 a diferença entre sinal e compromisso, como detalhou como e em que o primeiro se distingue do segundo.

Assim, “o compromisso inequívoco do Banco Central é com a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante e os passos futuros da política monetária são livremente ajustados com esse objetivo, conforme novas informações se tornam disponíveis”.

Mas e os sinais, o que significam e como devem ser interpretados?

Segundo o parágrafo 17, “indicações sobre a trajetória futura dos juros, sejam para a próxima reunião ou para o patamar final, são elementos úteis para a compreensão da função de reação da política monetária”.

Em outras palavras, o BC acha útil que o mercado entenda o que se passa na sua cabeça num determinado momento sobre o futuro da política monetária.

Porém, isso não quer dizer que essa visão não possa mudar. E a razão principal para isso vem no trecho final do parágrafo 17: “As informações obtidas no período entre as reuniões do Copom modificam as hipóteses presentes no cenário básico e no balanço de risco, e naturalmente alteram a trajetória futura dos juros”.

O parágrafo 17 também foi destacado pelo economista e consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, no seu relatório sobre a ata divulgado hoje.

O analista relembra no relatório a famosa expressão “whatever it takes” (custe o que custar) de 2012 do então presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi (hoje primeiro ministro da Itália). Ele pronunciou aquelas palavras no contexto das ações do BCE para salvar o euro, ameaçado pelo debacle de países como Grécia e Portugal. E parece ter funcionado, diga-se de passagem.

Schwartsman se pergunta se a  linguagem mais dura do nosso BC no comunicado e na ata não seriam passos na direção (mais fortes na ata do que no comunicado) de um “whatever it takes” para cumprir seu mandato de metas, diante do grande repique inflacionário nacional e internacional. O consultor acha que sim.

Sem dúvida, no contexto atual de acelerar a chegada da Selic no nível neutro (objetivo revelado pelo BC), em torno de 6,5%, o parágrafo 17, com sua distinção entre sinal e compromisso, não só soa como é um componente a mais da mensagem hawkish.

Se for pinçado do contexto atual específico, entretanto, o parágrafo é mesmo uma tentativa desse Copom de manter a sua estratégia de sinalizar passos futuros (de forma a que o mercado entenda a sua “função de reação”), mas sem que isso provoque os curtos circuitos de comunicação que vêm ocorrendo. Aliás, em outro contexto, num outro momento, a mesma mensagem poderia servir para decisões mais dovish (menos preocupadas com a inflação) do que os sinais emitidos previamente.

Resta a ver se a tentativa de “DR” vai funcionar, reduzindo a volatilidade e fazendo com que a curva de juros se comporte de forma mais congruente com o plano de voo do Banco Central para a Selic.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 22/6/2021, terça-feira.