BC tenta salvar o que pode

Diante da deterioração política e fiscal, BC sinaliza mais altas da Selic, mas alguns analistas acham que não há muito o que o Copom possa fazer para ancorar as expectativas inflacionárias.

Fernando Dantas

12 de dezembro de 2015 | 00h22

O Banco Central (BC) vem tentando salvar o que pode da política monetária, em meio à devastação que esta sofre como consequência do caos político e fiscal. O endurecimento do tom do presidente Alexandre Tombini, em recente pronunciamento, faz parte dessa estratégia. Outro dos seus elementos foram os recentes relatos na imprensa, baseados em fontes da equipe econômica, dando conta de que o BC esperava uma surpresa positiva na inflação de preços administrados. Foi um tiro n’água em termos de expectativas, porém – desde meados de novembro, a projeção mediana do mercado para a inflação de administrados em 2016 saltou de 6,9% para 7,35%. Na verdade, já há alguns analistas projetando 8% ou até bem mais.

Já as expectativas para o IPCA cheio em 2016 ultrapassaram o teto do intervalo de tolerância da meta (6,5%) em novembro e já estão em 6,7%. Há analistas respeitados trabalhando com projeções em torno de 7% ou mais.

Nesse cenário, o BC tenta evitar a desancoragem total das expectativas, o que inevitavelmente só pode ser feito com a sinalização de novas altas da Selic. “Eu acho que o BC quer deixar a inflação em 2016 minimamente ancorada, e se dará por contente se conseguir evitar que ela fure o teto ou talvez mesmo que apenas fique abaixo de 7%”, diz Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX.

Ela, como vários outros profissionais do mercado, espera um ciclo de alta da Selic a se iniciar na próxima reunião em janeiro, que elevaria a taxa básica em torno de 2 pontos porcentuais, podendo ser um pouco mais ou um pouco menos. Há consenso de que isto seria só o suficiente para reestabelecer o juro real, em torno de 8%, de quando a Selic atingiu 14,25% no final de julho.

Solange acha que a sorte do BC, nesse cenário, estará quase que inteiramente condicionada a um mínimo de estabilidade política e de avanço na agenda fiscal, que permitam estabilizar a taxa de câmbio e evitar novos estirões de depreciação.

“Se o real apreciar e o ambiente externo ajudar, eles até poderiam entrar num ciclo de queda ainda no ano que vem”, ela diz, mas deixando claro que isso é uma mera hipótese, e não um cenário provável.

José Júlio Senna, diretor do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV, nota que o recente discurso de Tombini teve uma pequena novidade – o fato de o presidente do BC dizer, negando a tese de dominância fiscal, que o desequilíbrio das contas públicas atrapalha, mas o Copom não deixará de agir.

“É um fato novo e sugestivo de que o BC considera a hipótese de fazer um ajuste da taxa nominal nos primeiros meses do ano”, comenta o economista, acrescentando que essa possibilidade é reforçada pela eliminação, na comunicação do BC, do compromisso de manter a Selic estável por um período prolongado, e também pela deterioração das expectativas de inflação.

Mas Senna prevê que será apenas uma recomposição do juro real, e que o sistema de preços continuará basicamente desancorado. Isto faz com que o economista considere otimistas as expectativas de IPCA em torno de 7% em 2016. Para ele, dada a desancoragem, trata-se de supor uma queda grande demais a partir da inflação de aproximadamente 10,7% de 2015.

Senna vê três razões para a incapacidade de o BC se comprometer de forma clara e eficaz com uma trajetória de convergência ao centro da meta (4,5%) num cronograma preciso de tempo, o que é a essência do regime de metas de inflação (ele acha que as recentes sinalizações, interpretadas por vários analistas como intenção do Copom de limitar o IPCA a 6,5% em 2016 e trazê-lo a 4,5% em 2017, foram feitas de forma muito indireta e vaga para comporem de fato uma âncora consistente).

A primeira razão é que o quadro recessivo já é muito severo, com queda do PIB entre 6% e 7% em dois anos. Senna observa que todos os BCs que adotam o sistema de meta têm um regime flexível, em que tipicamente a inflação é o objetivo principal, mas a atividade econômica também é levada em conta. “Se a atividade estiver muito ruim, é totalmente aceitável que se postergue a convergência para evitar um sacrifício grande demais”, ele diz.

A segunda razão é política. Para o economista, num país como o Brasil, “há momentos para se fazer altas de juros, é preciso vento favorável”. Ele nota que Tombini reduziu muito o juro real a partir de 2011, quando “o vento ia naquela direção”. Com a entrada de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda e a virada ortodoxa da política econômica da presidente Dilma Rousseff depois da reeleição, o BC se sentiu encorajado a ser mais agressivo e fez uma política muito acertada, que deu bons resultados até julho, quando a crise fiscal se conflagrou de forma mais intensa.

“Agora há uma discussão de impeachment, e o BC não tem condição de subir a Selic em 4 a 5 pontos porcentuais”, analisa Senna, para quem um ciclo desta monta seria efetivamente o necessário para apertar os juros reais em relação ao nível de julho (e não apenas recompô-los) e de fato ancorar as expectativas e criar condições para que a inflação convergisse para o centro da meta. Mas, mesmo que o BC estivesse disposto a isso, ele ressalva, há o risco de que um aumento tão grande dos juros que balizam a dívida pública criasse ainda mais insegurança fiscal, afetasse o câmbio e fosse contraproducente. Este é o terceiro fator que amarra as mãos do BC.

José Márcio Camargo, economista-chefe da gestora Opus, tem uma visão diferente. Ele prevê que o ciclo de alta da Selic vai ser de 2 a 2,5 pontos porcentuais, mas acha que o BC deveria fazer mais. Quanto à queda da atividade, ele diz que “a única coisa que deveria afetar a decisão do Copom é a inflação – se a inflação está se acelerando, é sinal de que a recessão ainda não foi suficiente”.

Em relação à questão fiscal, Camargo diz que esta não deveria guiar as ações do BC. “Se eles ficarem preocupados com o fiscal, vão perder o controle da inflação”. Finalmente, se houver algum impedimento político à alta de juros, por causa do impeachment e da situação complicada do País, Camargo considera que “os membros do Copom deveriam pedir demissão”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada ela AE-News/Broadcast em 11/12/15, sexta-feira