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BC vacilou com o coronavírus?

Uma corrente de analistas vê de forma fortemente crítica a forma como o Banco Central está lidando com imbróglio de coronavírus, câmbio e Selic, especialmente a nota do BC de terça, 3/3, em que indica que deve cortar o juro na reunião de março.

Fernando Dantas

06 de março de 2020 | 00h43

Há uma corrente no mercado financeiro, talvez minoritária, que está muito preocupada com a forma como o Banco Central vem lidando com o imbróglio de coronavírus, câmbio e Selic.

Na terça-feira (3/3), o Banco Central divulgou uma nota sobre o coronavírus que foi amplamente interpretada como um sinal de que vai voltar a cortar a Selic na próxima reunião do Copom, em 17 de março.

A razão dessa leitura do mercado é simples. Na nota, o BC indicou que dois fatores se digladiam na história do coronavírus.

Por um lado, o surto da doença esfria a economia mundial (derrubando preços de commodities, por exemplo), o que é desinflacionário, inclusive para o Brasil.

Por outro, eleva a aversão a risco, o que drena capitais de emergentes e faz a moeda destes países se desvalorizar, o que, a partir de certo ponto, é inflacionário para estas economias.

O BC não ficou em cima do muro. Na nota, disse que “à luz dos eventos recentes, o impacto sobre a economia brasileira proveniente da desaceleração global tende a dominar uma eventual deterioração nos preços de ativos financeiros”.

Ou seja, o efeito desinflacionário é maior. Ou seja, corte da Selic na próxima reunião.

Mas talvez tenha faltado combinar com o mercado. Não se trata de uma sangria desatada (a coluna foi escrita antes de uma deterioração mais aguda dos mercados, ao longo do dia), longe disso, mas o dólar, já em nível de alta recorde ante o real que ninguém se atreveria a prever há alguns meses, ganhou novo gás coincidentemente (ou não) a partir da terça-feira da nota. Dois leilões de swap cambial de R$ 1 bilhão cada, ontem e hoje (4 e 5/3), ainda não conseguiram fazer o câmbio sossegar.

(O BC fez mais dois leilões de swap cambial na quinta 5/3, após a coluna ter sido escrita – o total ofertado do dia foi R$ 3 bilhões)

O lado (mais ou menos) tranquilizador é que juros e risco já não explodem quando o câmbio dispara, como no Brasil de outrora. Mas mesmo aí nota-se alguma inquietação. A curva de juros está bem pressionada hoje, os juros implícitos nos títulos do Tesouro se moveram. O CDS (medida de risco país) de cinco anos voltou a subir com força hoje, para o nível mais alto desde novembro do ano passado (mas ainda está em território historicamente baixo).

(também aqui deve-se registrar que os indicadores de maneira geral acentuaram a piora depois que a coluna foi publicada – a bolsa caiu 4,65%)

Na visão de um representante da corrente de mercado aludida acima, é “maluquice” combinar intervenções para segurar o real com sinais de que a Selic vai cair ainda mais. Mais maluquice ainda, a seu ver, é defender mais intervenção no câmbio para a Selic pode cair ainda mais.

Esse gestor considera que o comunicado da terça-feira foi o equivalente a “jogar lenha na fogueira”.

O nó da questão já está bem batido. O Brasil está com juros baixíssimos para seu padrão histórico, o que inibe a entrada de capitais financeiros de diversas formas. Para vários analistas, esse é um dos fatores da atual depreciação.

Coincidentemente, o Brasil está numa fase pouco feliz em termos de contas externas. O déficit em conta corrente caminha para 3% do PIB com a economia locomovendo-se em ritmo de tartaruga. É verdade que mudanças metodológicas do BC poluem um pouco a leitura daquele número, mas ainda assim ele impressiona (mal) e tem também pés nos fundamentos econômicos.

Para azar do País, seus dois principais importadores, Argentina (automóveis e manufaturados) e China (commodities) estão em maus lençóis. Momento ruim para depender de uma arrancada na balança comercial para reverter a deterioração nas contas correntes.

No caso da indústria, adicionalmente, turbinar exportação e substituição de importação depende de as empresas fazerem um dever de casa que leva certo tempo.

Os puristas do sistema de metas dizem que o BC só deve se preocupar com o câmbio (para além de intervenções quando o mercado está “disfuncional”, um conceito espaçoso o suficiente para dar boa discricionariedade à autoridade monetária) quando este afeta as expectativas de inflação.

O gestor acima concorda. O problema é que o conjunto de percepções de mercado que embala o equilíbrio macroeconômico de uma economia emergente vulnerável pode mudar de forma muito veloz.

Até agora o câmbio não mexeu, ou mexeu muito pouco, com as expectativas inflacionárias firmemente ancoradas pela credibilidade do BC e pelo grande hiato do produto. Nos velhos (mas não tão distantes) tempos, entretanto, disparadas de câmbio eram acompanhadas por altas paralelas do risco, dos juros e, finalmente, da inflação, ainda que a economia estivesse andando de lado.

Não há nenhum sinal ainda de que o Brasil possa sofrer de um recuo qualitativo em direção a essa velha e danosa ordem das coisas, mas, na visão descrita nesta coluna, um pouco de prudência não faria mal nesta hora.

O analista conclui: “Não dá para achar que nós já podemos conduzir a política monetária exatamente da mesma forma que um país desenvolvido. É verdade que nós já caminhamos muito nessa direção, e hoje a forma com conduzimos a política monetária é bem mais parecida com a dos ricos. Mas é preciso ter calma. O choque do coronavírus é complexo, tem muitas facetas, pelo lado da oferta, da demanda, e afeta o risco. O BC deveria tentar ganhar tempo, mas não é isso que estamos vendo”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/3/2020, quinta-feira.

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