BCs americano e britânico sem pressa de subir juro

Reunião do FMI em Washington ecoou preocupações com crescimento global e visão de que BCs dos EUA e Reino Unido não estão com pressa em subir juros.

Fernando Dantas

14 de outubro de 2014 | 00h01

O ajuste dos juros básicos norte-americanos, hoje em virtualmente zero, pode demorar mais um pouco, a julgar pelo clima das confabulações durante a recém-terminada reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, em Washington. Esta foi a impressão de brasileiros que foram ao encontro, segundo conversas com a coluna. A queda hoje para menos de 2,3% da rentabilidade dos títulos do Tesouro norte-americanos de dez anos é consistente como esse sentimento.

Resumidamente, como observa Tomás Brisola, economista-chefe da gestora BBM Investimentos, e que foi a Washington, a sensação é de que a recuperação norte-americana, em vez de puxar o resto do mundo, pode ser minada pelo marasmo nas outras economias centrais.

A grande preocupação é com a Europa, mais especificamente com a zona do euro. “Há um consenso de que o Mario Draghi (presidente do Banco Central Europeu) é um herói, que evitou um colapso do euro, mas também de que a política monetária apenas não é suficiente, que é preciso fazer mais”, diz Brisola.

Assim, esquenta de novo o debate sobre possíveis estímulos fiscais nos países da zona do euro que têm condição para isso, com a ênfase sempre voltando à Alemanha (que tende a resistir a estes apelos, que vão contra seus instintos superortodoxos em política econômica).

Em relação aos Estados Unidos e ao Reino Unido, as duas grandes economias ricas que saíram na frente na recuperação, a ideia condensada durante a reunião do FMI é de que tendem a retornar à falta de pressa em abandonar o juro básico de praticamente zero.

Assim, como coloca um analista que não foi a Washington mas conversou com diversos participantes do mercado que lá estiveram, “em relação ao primeiro aumento dos Fed Funds (taxa básica norte-americana), passamos do ‘segundo trimestre de 2015 no mais tardar’ para ‘não antes do segundo trimestre de 2015’”. Já há analistas com projeções razoavelmente além disto. Da mesma forma, em relação ao Reino Unido, em que se esperava uma elevação antes mesmo dos Estados Unidos, a ideia agora é de que deve levar algum tempo a mais.

Segundo Brisola, uma expressão chave na reunião do FMI, aplicada principalmente em relação ao Federal Reserve (Fed, BC americano) é “gestão de risco”. A ideia seria de que, espremido entre dois riscos – o de uma nova desaceleração ou o de inflação – o Fed se sentiria mais confortável com este segundo.

O problema de lidar com o risco de atividade é que o BC norte-americano já fez muito tanto na política monetária convencional (corte dos juros básicos) quanto na não-convencional (injeções de liquidez, ou afrouxamento quantitativo). A política convencional naturalmente empacou no limite inferior do juro zero, enquanto a não-convencional tem resultados discutíveis. Já para lidar com uma alta de inflação além do desejável, o Fed sabe que pode usar a política monetária convencional, subindo os juros, e há um amplo retrospecto histórico do funcionamento deste instrumento.

“A visão é de que são riscos assimétricos, e que no atual contexto o Fed teme mais o risco de atividade”, resume Brisola.

O fato de que a simples perspectiva de que ajustem para cima seus juros está valorizando o dólar e a libra esterlina em relação ao euro e outras moedas, o que pode atrapalhar a recuperação americana e britânica, também pode pesar como fator de dilatamento do período de juro zero.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 13/10/14, segunda-feira.

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