Biden reinventa a centro-esquerda

No seu discurso ao Congresso, em que fala dos 100 primeiros dias e planos para o mandato, presidente norte-americano deixa claro que "terceira via", a tentativa de combinar socialdemocracia e economia liberal, de Clinton, Blair e Obama, é coisa do passado.

Fernando Dantas

29 de abril de 2021 | 19h47

O discurso do presidente americano, Joe Biden, para o Congresso, realizado ontem à noite, busca redefinir o que significa ser de centro-esquerda no mundo contemporâneo. A “terceira via”, a tentativa de combinar social-democracia com liberalismo econômico, passa longe da mensagem de Biden aos 100 dias da sua administração.

Biden, naturalmente, começou seu discurso com uma retrospectiva dos sucessos do início da sua gestão, como a espetacular campanha de vacinação contra a Covid da população americana.

Em termos mais ideológicos, o presidente, que mencionou a China como competidora várias vezes no pronunciamento, enfatizou muito o papel do Estado no desenvolvimento, justamente a característica que distingue o rival asiático.

Ao se referir ao “American Jobs Plan”, o maciço plano de US$ 2,3 trilhões de investimentos que se segue ao “American Rescue Plan” (de US$ 1,9 trilhão, e voltado especificamente à superação da pandemia), Biden declarou que “esses são investimentos que fazemos juntos, como um só país, e que somente o governo poder fazer”.

Biden lembrou que a agência governamental de pesquisa militar esteve por trás de projetos que levariam mais tarde à criação da internet e do GPS. E disse que gostaria de ver uma agência de pesquisa similar na área de saúde, para pavimentar avanços em relação a doenças como Alzheimer, diabete e câncer.

O American Jobs Plan prevê um upgrade generalizado na infraestrutura de transportes, a troca de todas as canalizações com chumbo dos Estados Unidos, a montagem de uma nova rede elétrica, a extensão da banda larga de alta velocidade para 100% dos americanos, a construção de edifícios inteligentes, a reforma de casas, prédios comerciais, escolas, hospitais e creches, a instalação de estações de carga para carros elétricos, a produção de turbinas para energia eólica etc.

Segundo Biden, o plano criará milhões de empregos com bons salários, suficientes para se criar uma família. O presidente frisou que esses postos de trabalho são para o homem comum, e que 90% deles não exigem diploma de ensino superior.

Em um “chega pra lá” no capitalismo financeiro ao qual se associaram presidentes democratas antes dele, como Bill Clinton e até Barack Obama, de quem foi vice, Biden disse que Wall Street não construiu os Estados Unidos, mas os sindicatos e a classe média construíram.

A ênfase no sindicalismo e na legislação trabalhista como ferramentas para reduzir as desigualdades é outra característica que distingue a doutrina econômico-política de Biden da terceira via de Clinton e Tony Blair, ex-primeiro ministro britânico.

Assim, em seu discurso, o presidente americano defendeu um projeto de lei para reforçar o direito à sindicalização e o salário mínimo nacional de US$ 15 por hora.

A novidade do discurso foi o lançamento do American Families Plan, que estende a escolarização obrigatória nos Estados Unidos de 12 para 16 anos – incluindo dois anos de pré-escola para crianças de 3 e 4 anos e dois anos de faculdade comunitária gratuita.

O plano das famílias americanas cria uma série de subsídios a pais de família, como auxílio doença e um crédito tributário de US$ 3 mil a USS 3,6 mil por ano por filho.

Na parte da tributação, Biden está mandando para o espaço toda a narrativa de que desonerar empresas e altas rendas é bom para o PIB, e focando justamente nos mais ricos para aumentar a arrecadação.

A engenharia tributária das grandes empresas e multinacionais, muitas vezes via paraísos fiscais, está sendo atacada frontalmente. E os americanos no grupo do 1% mais rico, que ganham US$ 400 mil ou mais por ano, terão que pagar uma alíquota máxima de imposto de renda de 39,6%. Mecanismos de evasão de imposto de renda de pessoa física dos muitos ricos também serão fechados.

É certo que políticos socialdemocratas do mundo todo, incluindo o Brasil, olharão para o novo presidente norte-americano como uma espécie de farol ideológico sobre a direção que a centroesquerda deve tomar no século XXI.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/4/2021, quinta-feira.