“Bidenomics”, péssima ideia para o Brasil

Quando há alta do risco global, dinheiro foge 'do' Brasil e 'para os' Estados Unidos, que por isso têm muito mais espaço para experimentar com aumento da dívida pública.

Fernando Dantas

27 de abril de 2021 | 09h35

A dívida pública dos Estados Unidos saltou de 60% do PIB em 2008, antes da eclosão da grande crise financeira global, para 125% após os gastos com a Covid-19. E vai crescer mais com os pacotes de estímulo e investimento de trilhões de dólares do governo de Joe Biden.

Muitos falam de um novo paradigma de política econômica. De 1930 a 1980, imperou o keynesianismo. De 1980 até recentemente, o neoliberalismo. E, com a chamada “Bidenomics”, o mundo deve entrar de novo numa fase em que a intervenção maciça do Estado na economia cairá nas graças mesmo do establishment.

Mas qual o limite para um governo gastar e se endivida? A leitura simples da “teoria monetária moderna” (MMT, na sigla em inglês) é de que não há limites. Como ente soberano, com poder de criar dinheiro a partir do nada, o Estado seria “inquebrável”.

A visão tradicional, entretanto, é de que governos gastadores acabam provocando inflação e, no limite, hiperinflação, que não deixa de ser um calote geral do Estado em todo mundo.

Mas a experiência mais recente mostrou que no mundo desenvolvido é muito difícil fazer a inflação subir além dos níveis muito baixos, com momentos de deflação ou quase, para o qual ela foi trazida nas últimas décadas.

Monumentais injeções monetárias foram realizadas pelos principais bancos centrais do mundo avançado desde a grande crise financeira global de 2018-19 (e novamente na pandemia), sem que a inflação subisse. A visão tradicional é de que inundar os mercados de liquidez pode provocar inflação de bens, o que não ocorreu.

Na área fiscal, também já houve experimentos de significativo impulsos no Japão, nos Estados Unidos e em alguns países da Europa nos tempos recentes, sem criar pressões inflacionárias tampouco.

Mas na seara fiscal os limites não foram testados da forma avassaladora ocorrida na política monetária. Na verdade, o teste para valer serão justamente os pacotes gigantescos de Biden na esteira de gastos também extraordinariamente elevados durante a pandemia.

Essa questão vem sendo discutida intensamente nos Estados Unidos e no mundo rico. Em longo artigo recente, o economista e colunista Noah Smith defendeu a tese de que basicamente ninguém, nem os melhores macroeconomistas do mundo, tem ideia de quanto um governo pode tomar emprestado (quanto a dívida pode aumentar) de forma segura.

Smith obviamente tem seu foco nos Estados Unidos e nos países ricos. Ele é favorável à Bidenomics de forma geral, mas rejeita as noções da MMT de que é possível o governo gastar sem limites.

O economista cria uma metáfora para esse problema: um corredor infinito com um buraco profundo e invisível. À medida que o governo americano vai gastando e aumentando sua dívida, é como se estivesse percorrendo o corredor.

Há o risco de que em algum momento ele caia no buraco invisível. Mas como o corredor é infinito, não se tem a mínima ideia de quanto tempo isso pode levar para a acontecer. Pode ser num futuro tão longínquo que, na prática, nem se trata de um limite. Mas também pode ser muito mais próximo do que julgam os otimistas.

Smith apoia a mudança de paradigma que julga estar sendo realizada por Biden na economia, por uma série de razões, que explica nesse e em outros artigos. Mas o economista que reduzir os riscos da transição.

Para ele, o buraco invisível do corredor é a hiperinflação. Seria o momento em que americanos e estrangeiros, diante do aumento da dívida e/ou da desenfreada criação de dólares pelo Fed (BC americano), concluiriam que o dólar vai derreter em termos de valor e fogem da moeda.

Óbvio que não se está perto disso, mas ele acha mais seguro para os Estados Unidos avançarem no corredor com alguma visibilidade sobre o buraco.

Smith reclama que a Economia acadêmica abandonou o estudo das hiperinflações – o que soa irônico para brasileiros – porque é uma situação muito remota para o mundo avançado hoje. Hiperinflações ocorreram em países centro-europeus no conturbado entreguerras ou mais recentemente em emergentes bagunçados como Brasil e Argentina (e agora na Venezuela).

Dessa forma, ele conclama os melhores economistas e centros de pesquisa acadêmica do mundo, a maioria dos quais nos próprios Estados Unidos, a retomarem o estudo da hiperinflação como forma de antecipar de forma mais rápida e acurada se o grande experimento econômico de Biden começar a fazer água.

Do ponto de vista do Brasil, toda essa discussão é interessante, mas perigosíssima.

Um renomado economista brasileiro observa que não há nada que indique que os Estados Unidos não têm limite fiscal, mas, de fato, se há um país que provavelmente tem esse limite em níveis muito elevados é os EUA.

“Por algum motivo todo investidor no mundo se sente muito confortável com títulos do governo americano, então os Estados Unidos podem arriscar mais”, ele observa.

Uma das provas disso é que, nos momentos de estresse e alta de risco global, os investidores tendem a fugir de outras aplicações na direção dos títulos do Tesouro americano, cujas rentabilidades caem nesses episódios devido a esse movimento.

A mais óbvia razão pela qual nada do que está sendo discutido nos Estados Unidos em termos de limite para a política fiscal se aplica ao Brasil pode se percebida justamente nesses momentos de alta do risco global.

Ao contrário do que ocorre em relação aos Estados Unidos, nesses momentos os investidores fogem “dos” – e não “para os” – ativos brasileiros.

É por isso que o spread dos títulos externos brasileiros e o risco Brasil sobem, mas não só eles. Há contaminação também do mercado doméstico, a curva de juros empina, os spreads em real tendem também a se elevar. E, claro, o real se deprecia.

O que os tempos mais recentes ensinaram – ou melhor, reforçaram, porque qualquer analista de bom senso já percebia isso – é que, quanto mais apreensão dos investidores sobre o risco fiscal brasileiro, mais o risco sobe, mais spreads e juros internos e externos se elevam, mais o câmbio deprecia.

É por isso, inclusive, como observa a fonte, “que o limite da inflação provocado por uma dívida pública muito alta é muito mais agudo no Brasil do que nos Estados Unidos”.

A razão, ele explica, é que, mesmo com o hiato do produto muito aberto – isto é, demanda muito combalida, um fator desinflacionário –, a depreciação do real acaba sendo tão extrema que a inflação começa a subir.

“Aqui não dá nem para experimentar, se fizer gracinha a consequência vem na hora”, ele diz.

Em termos mais teóricos, o economista aponta que os limites do endividamento dependem da capacidade – e da visão dos agentes econômicos sobre essa capacidade – de o País manter juro real baixo, crescer e fazer resultados primários.

Em todos esses pontos, os Estados Unidos batem o Brasil de muito longe.

Na verdade, na visão do especialista, o Brasil já está vivendo o encontro com o seu limite em termos de expansão da dívida pública. A alta do dólar, do risco, da curva de juros e da inflação são a prova disso.

“É loucura achar que a Bidenomics se aplica ao Brasil”, ele conclui.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/4/2021, segunda-feira.