Bilionários merecem o que têm?

Enquanto gráfico que roda nas redes sociais mostra uma proporção chocante de bilionários que herdaram sua fortuna ou a fizeram com conexões políticas em vários países, estudo em que gráfico se baseou conta uma história mais matizada sobre como os mais ricos do mundo chegaram lá.

Fernando Dantas

20 de julho de 2021 | 11h04

Bilionários se tornaram um tema política quente nos últimos tempos. Enquanto alguns deles, como Jeff Bezos (Amazon) e Richard Branson (Virgin), se aventuram em viagens espaciais, muitos militantes políticos questionam se deveriam existir bilionários no mundo.

Recentemente, rodou nas redes sociais um gráfico do site “El Orden Mundial”, sobre os bilionários do mundo, que à primeira vista choca. O gráfico mostra que no Chile, Alemanha, Espanha, França e Brasil, a proporção de bilionários que herdou sua fortuna é de, respectivamente, 67%, 65%, 54%, 51% e 48%. Esses são, naturalmente, os países com os maiores porcentuais.

Como ainda há uma categoria no gráfico de bilionários com “conexões políticas”, que varia de 4% a 30% do total nos países representados – com a exceção espantosa de 64% na Rússia –, a sensação é de que a meritocracia no topo do topo da pirâmide capitalista é um conceito muito relativo.

Na verdade, o gráfico é baseado num estudo de 2016 das pesquisadoras Caroline Freund e Sarah Oliver, do Peterson Institute for International Economics, ao qual vale a pena retornar.

O estudo do Peterson Institute, que cria uma nova base de dados sobre os superricos em diversos países, mostra um quadro bem mais matizado do fenômeno dos bilionários no mundo do que aquele que salta aos olhos quando se depara com o gráfico do site El Orden Mundial.

A base de dados montada pelas autoras foi construída a partir de 20 anos (1996 até 2015) das listas de bilionários da revista Forbes – com agregação, é  evidente, de muitas informações.

É preciso inicialmente entender a categorização dos diferentes tipos de bilionários no trabalho das autoras. Assim, a fortuna é considerada como herança se o bilionário em 2014 era parente do fundador do negócio do qual a maior parte da riqueza deriva. Como se vê, isso pode incluir alguns herdeiros competentes que aumentaram ainda mais a fortuna herdada.

No caso dos bilionários politicamente conectados, a categoria é assimilada à daqueles cuja fortuna deriva de recursos naturais. A ideia é que esse último setor sempre depende de licenças governamentais.

E são considerados politicamente conectados aqueles sobre os quais há matérias na imprensa ligando a fortuna a posições passadas no governo, a familiares ou amigos íntimos no governo, ou a licenças governamentais questionáveis. Toda fortuna bilionária provinda de privatização também é classificada na categoria dos “politicamente conectados”.

As autoras explicam que não julgam se a riqueza de determinado bilionário com as características acima de fato dependeu dos contatos do governo, nem se o(s) ativo(s) adquirido(s) em privatização foi ou foram bem gerido(s) posteriormente ou não. Elas consideram que seria muito complicado fazer esse tipo de discriminação, e preferiram incluir tudo na mesma categoria dos “politicamente conectados” para simplificar.

Dessa forma, como se vê, o rótulo de politicamente conectado (incluindo bilionários do setor de recursos naturais) torna-se bastante amplo.

Entre as conclusões mais interessantes, o ‘paper’ mostrou, por exemplo, que o cenário nos Estados Unidos, com 1/3 de herdeiros, é mais dinâmico que na Europa, onde mais da metade dos bilionários é classificada nessa categoria e onde a idade média da empresa principal do superrico é 20 anos maior do que no caso norte-americano.

Outro achado é que a chamada “riqueza extrema” vinha crescendo (pelo menos até 2016) bem mais rapidamente nos países emergentes do que nos países ricos.

O trabalho também indica que, no mundo como um todo, as fortunas bilionárias são cada vez mais construídas (em vez de serem herdadas). A exceção está no Oriente Médio e Norte da África.

Uma das conclusões significativas do estudo é a de que “os superricos do mundo emergente não estão mais  concentrados nos setores de recursos naturais e dos politicamente conectados, como no passado”.

Segunda as autoras, uma parcela grande e crescente dos bilionários surgidos no mundo emergente nos últimos 20 anos são fundadores de empresas que criaram produtos novos e inovadores.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/7/2021, segunda-feira.