Boa surpresa nos serviços, especialmente às famílias

Segunda onda e perspectiva de fim dos auxílios não freou o aumento do consumo de serviços em novembro, mesmo aqueles fora de casa com mais risco de coronavírus.

Fernando Dantas

14 de janeiro de 2021 | 10h39

A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de novembro foi uma grata surpresa para os mais preocupados com o ritmo da recuperação brasileira. A alta de 2,6% ante outubro (dessazonalizada, como todas as comparações nessa base) ficou acima do teto das estimativas do Projeções Broadcast, de 2,1%.

E a queda de 4,9% ante novembro de 2019 foi menor que a previsão mais otimista do Projeções Broadcast, de recuo de 5,1%.

Segundo Lucas Rocca, economista da consultoria LCA, dois fatores levavam a expectativas mais modestas sobre o desempenho dos serviços em novembro.

O primeiro deles é a segunda onda da pandemia, que foi ficando evidente ao longo do penúltimo mês do ano passado. De acordo com os dados do Ministério da Saúde, a média móvel de sete dias de mortes pela Covid, que iniciou novembro em trajetória de queda, atingindo um mínimo de 324 em 11/11, começou a subir e terminou o mês acima de 500.

Adicionalmente, já havia todo o noticiário sobre a segunda onda da Covid-19 em vários países do mundo.

No entanto, como explica Rocca, o efeito da segunda onda sobre a circulação das pessoas no Brasil em novembro, tal como registrado por indicadores como o do Google, não foi significativo.

Outro fator que se julgava pudesse frear o ritmo da retomada dos serviços era a aproximação de janeiro, momento em que os programas do governo, ligados à pandemia, de apoio a famílias (dos quais o principal é o auxílio emergencial, que já havia sido reduzido pela metade em setembro) e de manutenção de emprego saem do ar.

De forma semelhante, não houve sinais desse arrefecimento no resultado da PMS em novembro.

O analista observa que os “serviços prestados às famílias”, o segmento de serviços que mais sofreu com a pandemia, foi particularmente bem em novembro. Depois de crescer 5% entre setembro e outubro, os serviços prestados à família aceleraram para um avanço de 8,2% em novembro.

Segmento mais impactado pelo coronavírus, os serviços prestados às famílias ainda acumulam uma queda de 36,6% em 2020, comparado a um recuo bem menor, de 8,3%, para os serviços como um todo.

Dentro dos serviços prestados às famílias está o segmento de serviços de alojamentos e alimentação, muito ligado ao setor de turismo. Esse serviços cresceram 9,1% em novembro, ante outubro, acelerando também em relação à expansão de 6,8% em outubro, ante setembro.

Um sinal, portanto, de que os brasileiros estão voltando a viajar, se hospedar em hotéis e pousadas, frequentar restaurantes, buscar o lazer fora de casa.

Rocca acrescenta que os indicadores de circulação do Google em dezembro indicam que houve aumento da frequência a estabelecimentos comerciais, com redução do tempo gasto no domicílio, trabalho e transporte público.

Com a possível exceção do transporte público, os outros três elementos parecem configurar uma típica temporadas de final de ano – indicando que pode estar correta a percepção generalizada de que boa parte da população ignorou os riscos da Covid-19 e partiu com vontade para as atividades típicas das semanas de Natal e Ano Novo.

Evidentemente, isso não é nada bom em termos epidemiológicos, mas pode indicar que os serviços também tiveram um bom resultado no último mês do ano.

Ainda assim, a projeção mais comum entre os analistas permanece a de que um arrefecimento já estaria acontecendo ou a caminho – especialmente a partir de janeiro, quando a economia começa a enfrentar a realidade da vida sem os auxílios da pandemia.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/1/2021, quarta-feira.

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