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Bolsonarismo é osso duro de roer

Mesmo com um dos governos mais infames da história brasileira para a elite pensante, Bolsonaro mantém uma base fiel de apoio.

Fernando Dantas

15 de julho de 2020 | 19h12

Para a elite pensante do Brasil, nada é mais difícil do que entender a resistência dos índices de aprovação de Jair Bolsonaro.

É verdade que o presidente não está numa boa posição de popularidade após um ano e meio de mandato. Mas tampouco está numa posição desastrosa.

Recentes pesquisas de opinião mostram que determinado piso de aprovação, ou pelo menos de não rejeição, do presidente é bastante sólido e pouco vulnerável à corrosão.

A última pesquisa DataPoder360 indica que Bolsonaro tem 40% de aprovação e 47% de desaprovação. Já o Vox Populi mostra o presidente com 31% de avaliação positiva, 23% regular e 44% negativa.

Nessa fidelidade de uma parcela relevante de eleitores, Bolsonaro se diferencia muito de outro presidente de direita com quem às vezes é comparado, Fernando Collor.

Collor, assim como disparou nas pesquisas e conseguiu se eleger com base política mínima e pouquíssimo tempo decorrido no palco principal da política nacional, caiu como uma pedra quando foi envolto em escândalos (e após o fracasso do plano Collor) e não teve como resistir ao impeachment.

Na verdade, comparado a Bolsonaro, Collor é um santo para os padrões da elite intelectual do País.

O atual presidente verdadeiramente “tacou o terror”: defendeu torturadores, flertou com grupos e militantes pró-ditadura, atacou minorias étnicas e de opção sexual, ofendeu outros Poderes e níveis da Federação, beneficiou-se (e alegadamente promoveu) uma rede de fake news para atacar seus adversários, valeu-se de poderes de Estado para tentar defender parentes acusados de crimes e de envolvimento com organizações criminosas e homicidas, facilitou a destruição do meio ambiente e, em especial, da Amazônia e, por fim, sabotou como pôde os esforços para controlar a pandemia da Covid-19, levando a dezenas de milhares de mortes evitáveis.

E, no entanto, a base de apoio a Bolsonaro resiste, ao contrário da de Collor, que se esfacelou.

Esse fenômeno atesta que um elemento novo surgiu na política brasileira nos últimos anos: uma firme base eleitoral conservadora, de centro-direita e direita. Parte possivelmente menor desse grupo se identifica com o extremismo do chamado “grupo ideológico” do bolsonarismo, que tem nos seus filhos e no guru Olavo de Carvalho as referências.

Mas uma parcela provavelmente maior dos que seguem apoiando o governo, ou ao menos dando-lhe o benefício da dúvida, é composta por um eleitorado conservador e de centro-direita mais convencional, que “descobriu” a sua própria força política com a desintegração do PSDB da velha guarda, pré-Doria.

Mas esses dois componentes da base de apoio de Bolsonaro podem estar se afastando, especialmente em função da reação do presidente ao coronavírus.

É o que indica recente pesquisa de opinião coordenada pelos cientistas sociais Carlos Pereira, Amanda Medeiros e Frederico Bertholini, em duas rodadas (março/abril e maio/junho), com milhares de pessoas divididas em grupos de identidade ideológica: esquerda, centro-esquerda, centro centro-direita e direita.

O apoio à política de isolamento social é maciço na esquerda e centro-esquerda nas duas rodadas, próximo a 100%. O apoio também é muito grande no centro (acima de 85% nas duas rodadas) e bastante expressivo na centro-direita (acima de 70%).

Em todos esses grupos, o apoio ao isolamento social na primeira e segunda rodada da pesquisa mudou pouco, e de maneira geral na direção de aumentar.

No eleitorado de direita, porém, o padrão muda.

Na primeira rodada (março-abril), 59% desses eleitores apoiaram a quarentena, e 38% rejeitaram. Na segunda (maio/junho), o apoio caiu para 41%, e a rejeição subiu para 57%.

De forma paralela, apenas entre esses eleitores de direita a avaliação negativa de Bolsonaro cai entre as duas rodadas, de 31% para 23%. Em todos os outros grupos, a rejeição aumenta.

Dessa forma, ainda que sólida, a base de apoio a Bolsonaro pode estar mudando de composição. Assim como eleitores de centro-direita questionam cada vez mais as ações do presidente, há um eleitor mais pobre e “pragmático”, cuja avaliação do governo melhorou em função do auxílio emergencial – há indicações desta última tendência nas pesquisas mais recentes.

O auxílio emergencial, contudo, é um programa proibitivo em termos fiscais, que terá que ser descontinuado ou muito reduzido. O governo estuda formas de, pelo menos, colocar alguma coisa no lugar que seja um “upgrade” em relação ao Bolsa-Família e possa consolidar o apoio dos “pobres pragmáticos”.

Seja como for, não houve até agora atrocidade cometida por Bolsonaro que ameaçasse seriamente essa sua base de apoio mínima para a sobrevivência política. Se alguns saíram do barco, outros entraram. O establishment está diante de um adversário mais duro do que poderia se supor.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/7/2020, quarta-feira.

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