Bolsonarista não é mais o mesmo

Última pesquisa do Datafolha mostra que o núcleo mais fiel de apoiadores do presidente é mais velho, menos instruído e mais pobre do que foi durante a campanha de 2018.

Fernando Dantas

31 de maio de 2021 | 11h05

Pesquisa saída do forno do PoderData mostra que 57% dos brasileiros querem o impeachment do presidente Jair Bolsonaro. Sem dúvida, é uma boa notícia para os muitos adversários do presidente, que querem vê-lo longe do poder, seja a partir de janeiro de 2023, seja antes.

Mas talvez seja interessante mirar nos 37% que, na mesma pesquisa, declaram que desejam que Bolsonaro continue no poder. É nesse grupo que Bolsonaro tem sua base de apoio. É o seu trunfo tanto para resistir a um processo de impeachment quanto para tentar chegar ao segundo turno no ano que vem e montar um plataforma de ataque a outras fatias do eleitorado para se reeleger.

Embora retrate um núcleo ainda menor de eleitorado bolsonarista, há um quadro extremamente interessante na mais recente pesquisa eleitoral do Datafolha,  que compara as intenções de voto em Bolsonaro em primeiro turno em agosto de 2018 e agora, em maio de 2021.

Essa consulta foi estimulada em ambas as datas, isto é, apresentou-se uma lista de candidatos, e tanto Lula como Ciro estavam entre os listados nas duas ocasiões, dentre outros nomes.

A peculiaridade da pesquisa de agosto de 2018 é que ela foi realizada pouco antes da facada em Bolsonaro, em 6 de setembro.

Dessa forma, a pesquisa capta as intenções de voto no primeiro turno do atual presidente antes da disparada de sua popularidade que muitos associam ao episódio da facada. A pesquisa de agosto de 2018 apreende, de certa forma, um eleitor de Bolsonaro “mais raiz”.

A pesquisa de maio deste ano também, de certa maneira, captura eleitores em que a preferência por Bolsonaro está mais entranhada, mas por um processo de depuração diferente.

Com o desastre da reação do governo à pandemia sendo esfregado diariamente na cara da Nação pela CPI e a economia e o mercado de trabalho ainda em frangalhos, Bolsonaro está no seu momento mais impopular desde o início do governo.

De certa forma, pode-se dizer que o presidente foi abandonado pelos bolsonaristas “modinha” mas mantém o apoio dos bolsonaristas “raiz”.

Dessa forma, tanto em agosto de 2018 quanto em maio de 2021, o DataFolha mediu o eleitorado bolsonarista mais permanente, num contexto de disputa de primeiro turno em que constam Lula e Ciro.

O primeiro aspecto importante é qual o percentual de eleitores que, nas duas ocasiões, fez parte do grupo descrito acima. Na verdade, 19% em agosto de 2018 e 23% em maio de 2021.

Há uma pequena alta, compreensível por Bolsonaro ser agora um candidato incumbente (isto é, que está no cargo disputado, com todo o poder e toda a visibilidade que isso confere). Mas, de fato, levando-se em conta margens de erro, a diferença é pequena, quiçá irrelevante.

O mais interessante da comparação entre os dois momentos, portanto, recai na composição desse eleitorado, que mudou fortemente.

Comparado a agosto de 2018, o eleitor de Bolsonaro agora é mais velho, menos instruído e mais pobre. E, surpreendentemente, apesar de ainda ser um candidato preferido por homens, há hoje proporcionalmente mais mulheres apoiando o atual presidente do que em agosto de 2018.

Em agosto de 2018, Bolsonaro tinha o apoio de 27% do homens e 13% das mulheres. Agora, essas proporções são de, respectivamente, 29% e 19%.

Na primeira pesquisa, Bolsonaro teve apoio de 24% dos eleitores de 16 a 24 anos, proporção que caiu para 18% em maio deste ano. Já no eleitorado entre 45 anos ou mais, a intenção de voto no presidente caiu de cerca de 23% em agosto de 2018 para 15%.

As mudanças mais impressionantes, entretanto, estão na escala educacional e de renda. Em agosto de 2018, Bolsonaro tinha a intenção de voto de apenas 10% dos brasileiros com ensino fundamental, e 11% dos que ganhavam até dois salários mínimos. Em maio de 2021, essa proporção subiu para 20% em ambos os casos.

A intenção de voto em Bolsonaro (nas características já mencionadas da consulta) também cresceu entre os brasileiros com ensino médio, de 24% para 26%  – quase estabilidade, na verdade, levando em conta a margem de erro – e que ganham de dois a cinco salários mínimos, de 25% para 29%.

Em compensação, o apoio ao presidente caiu de 27% para 22% entre os brasileiros com ensino superior, e despencou de 30% para 18% entre os que ganham mais de dez salários mínimos.

Várias ilações podem ser feitas sobre essa mudança no perfil do eleitor de Bolsonaro. Talvez as duas rodadas de auxílio emergencial neste ano e no passado (a primeira foi muito maior) tenham fidelizado uma parcela do eleitorado da parte inferior da pirâmide socioeconômica.

É possível que a reação absurdamente anticientífica de Bolsonaro à pandemia tenha desapontado largas faixas do eleitorado mais rico e instruído, assim como a decepção com Paulo Guedes, que se revelou um ministro extremamente atrapalhado e que pouco conseguiu realizar de sua agenda liberal.

De qualquer forma, parece que o bolsonarismo fincou um pé numa parcela minoritária, porém significativa, do “povão”, o que pode estar ligado aos evangélicos.

Do ponto de vista econômico, o eleitorado atual de Bolsonaro parece ser mais demandante de políticas “pau na máquina”  – quanto mais pobre, menos se pode “esperar” pelos bons tempos – e de transferências.

O que talvez seja uma pista sobre o que vem por aí na reta para 2022.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/5/2021, sexta-feira.

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