Bolsonaro ainda tem chance?

Avanço impressionante de Lula veio na esteira de erros em série do atual presidente. Alta das commodities pode ser boia de salvação de Bolsonaro, mas talvez seja tarde demais.

Fernando Dantas

13 de maio de 2021 | 19h31

O impressionante avanço de Lula na pesquisa do Datafolha divulgada ontem (12/5, quarta-feira) coloca o ex-presidente, pelo menos na fotografia do momento, como o grande favorito para a eleição de 2022.

Sem dúvida, Jair Bolsonaro atravessa o seu pior momento, com erosão crescente do seu cacife político.

Para o cientista político Carlos Pereira (Ebape-FGV, no Rio), “o avanço de Lula está diretamente ligado à sucessão de erros de Bolsonaro, tanto em relação ao parlamento quanto à sociedade”.

Pereira foi um crítico contumaz, de primeira hora, da decisão inicial de Bolsonaro de governar sem uma base no Congresso. O governo desprezou o Legislativo quando estava no auge do seu poder, recém-eleito, e portanto com o máximo de prestígio e poder da barganha.

Após a bem sucedida aprovação da reforma da Previdência, mas que contou com o trabalho prévio de outros governos e com o apoio de parlamentares importantes hostilizados pelo bolsonarismo, o Executivo enfileirou uma séria de fiascos e derrotas na sua relação com o Congresso.

Tardiamente, Bolsonaro buscou o Centrão, mas já em posição politicamente mais fraca e sujeito a custos bem maiores para obter a fidelidade da base – o que fica evidente no escândalo do “tratoraço”, relevado pelo Estadão, em reportagem de Breno Pires.

Esse encadeamento de fatos e circunstâncias foi reiteradamente previsto por Pereira antes que ocorresse.

Segundo o cientista político, Bolsonaro foi tão inábil que permitiu que seus adversários, aliados às instituições de controle, dessem um drible na frágil base parlamentar e instituíssem a CPI da Covid em condições extremamente desfavoráveis para o governo, com a situação em minoria.

“Agora temos raposas velhas no controle da CPI querendo ver sangue do governo”, diz Pereira.

Ele considera que a tendência é de a candidatura de Bolsonaro perder competitividade – também, claro, pela péssima gestão da pandemia –, a menos de uma reviravolta muito forte para melhor no quadro epidemiológico, vacinal e econômico.

Tirante essa hipótese, que considera pouco provável, o pesquisador pensa que “Bolsonaro vai terminar o ano em frangalhos e Lula vai nadar de braçada”.

Em relação a uma terceira candidatura – além daquela de Ciro Gomes, que já está posta – de tendência centrista, Pereira aponta a proliferação de nomes e a dificuldade de coordenação com principal empecilho.

Ele considera cedo, entretanto, para descartar mudanças no cenário: recuperação de Bolsonaro em caso de reviravolta sanitária e econômica; algum novo problema legal atingindo Lula; e a definição de um nome de união do centro, tornando essa opção mais consistente para o eleitorado.

Ainda que veja dificuldades para esses cenários se concretizarem, o pesquisador pensa que “a cristalização da polarização [Lula-Bolsonaro] não está dada”.

Na sua visão, outros candidatos que não Lula também poderiam derrotar Bolsonaro num eventual segundo turno, ou disputar uma eleição mais apertada com o próprio Lula.

Daniela Campelo, também cientista política da Ebape (e que será fellow do Wilson Center, think tank em Washington DC, a partir de setembro), tem se dedicado a pesquisar a relação entre a popularidade presidencial e os ciclos de commodities na América Latina.

Agora há uma forte alta de commodities – discute-se se seria o início de um ciclo de elevação de preços mais consistente e duradouro – e, no entanto, Bolsonaro enfrenta talvez o pior momento do seu mandato em termos de popularidade e chances de reeleição.

Campello observa, porém, que um dos elos principais da cadeia entre a alta das commodities e a popularidade presidencial não está funcionando: o real não se valorizou como no passado nessas ocasiões, pelo contrário.

Dessa forma, não ocorre a combinação típica dos booms de commodities em que a economia e o consumo crescem sem gerar inflação. Agora, ao contrário, a inflação subiu, atingindo especialmente os alimentos, item importante da cesta de consumo popular.

A cientista política diz que a razão para a quebra daquele elo é um debate de economistas. Fala-se nos problemas fiscais, na instabilidade política  que afugenta capitais e até na taxa de juro muito baixa.

Independentemente dessa discussão, ela continua, “nos estudos de voto econômico no Brasil a variável mais consistente é justamente o câmbio [cuja apreciação favorece o governo incumbente]”.

Campello nota, entretanto, que ainda há água a rolar por debaixo da ponte até as eleições de 2022.

Ela não descarta uma recuperação da imagem e do cacife do Bolsonaro caso se consolide um boom muito rápido e forte de commodities.

Não descartar, porém, não significa achar provável. Na verdade, o tempo até a eleição tampouco é tão grande para que uma grande melhora econômica se traduza em uma sensação de bem-estar a ponto de ser decisiva para Bolsonaro em 2022.

“Pode ser que os efeitos do eventual boom cheguem já com imagem negativa do presidente consolidada pela tragédia da pandemia e pelos efeitos da CPI, e não haja mais tempo para reversão antes da eleição”, avalia.

Campello nota, finalmente, que as pesquisas indicam que, quando o cenário externo que influencia o voto na América Latina não é nem muito bom nem muito ruim – ou quando a tradução desse cenário externo internamente está nessa situação de meio termo –, a competência do governo, inclusive de se vender, importa muito.

E nesse quesito de competência do governo não se pode esperar muito de Bolsonaro.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/5/2021, quinta-feira.