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Bolsonaro atrapalha no momento decisivo

Nas próximas semanas, ficará claro se evolução da pandemia da Covid-19 no Brasil seguirá ritmo trágico e desastroso da Itália e Espanha ou se a coisa não será tão ruim. Bolsonaro aumenta chances do pior cenário.

Fernando Dantas

28 de março de 2020 | 20h27

Quando se analisa as curvas de contaminados e de mortes pelo coronavírus do Brasil nos últimos dias e da Espanha há cerca de duas semanas – quando o país europeu estava em níveis próximos aos brasileiros atuais –, nota-se que a epidemia ainda acelera no Brasil, mas a um ritmo menor do que o espanhol nessa etapa.

Mas não dá para ter nenhum otimismo com essa constatação. As subnotificações, a aceleração da testagem, o aumento de mortes quando o sistema médico colapsa ante a demanda da Covid-19 – todos estes são fatores que dão enorme incerteza às medições do ritmo da epidemia. Além do que extrapolar tendências de poucos dias é extremamente duvidoso em termos estatísticos.

O máximo que se pode dizer é que talvez haja alguma chance de o Brasil evitar ou pelo menos minimizar a intensidade do colapso do sistema de saúde previsto para abril.

Por isso mesmo, as próximas semanas são um momento decisivo para definir o estrago em termos de vidas humana e caos no sistema médico que a Covid-19 causará no Brasil.

É o momento em que, de acordo com todos os médicos e economistas ouvidos pelo colunista ao longo da semana, a quarentena deveria ser intensificada ao máximo.

No entanto, o presidente Jair Bolsonaro e o seu entorno íntimo, de forma que parece quase insana, vêm se esforçando para afrouxar a quarentena, o que já repercute nas carreatas de empresários pedindo a volta do comércio e outros negócios.

A sorte é que outras esferas do governo em sentido amplo – como o Legislativo – continuam a trabalhar de forma racional diante da pandemia, com medidas como auxílio de R$ 600 (a ver se o fardo fiscal é adequado) para os trabalhadores informais e a linha de crédito emergencial para pequenas e médias empresas anunciada pelo Banco Central.

Nelson Barbosa, ex-ministro da Fazenda no governo Dilma, aprovou a medida do BC. Ele frisa que a opinião vem do que foi anunciado, e que não analisou ainda o texto legal em si.

“Faltou colocar o BC diretamente [Barbosa fez uma sugestão neste sentido em recém-publicado artigo no Blog do Ibre], e eu acho que não precisa de PEC, pois o Lula abriu esta possibilidade em 2008, com a MP 442, depois convertida em lei, mas que o Henrique Meirelles nunca utilizou. Mas isso é assunto jurídico. Enquanto estudam como o BC entrar, autorizaram o BNDES a usar recursos ociosos que tem, emprestados pelo Tesouro”.

Para o ex-ministro, “é ótima iniciativa na direção; quanto à forma, o tempo e a gravidade não permitem acertar tudo de primeira, é melhor começar e ir ajustando”.

Como se vê, a intensidade da crise está criando consensos e colaboração entre atores de diferentes posições do espectro político, mas Bolsonaro caminha no sentido inverso, semeando a discórdia e a confusão.

Um experiente analista político teme que, se Bolsonaro tiver sucesso no seu esforço de desmobilizar prematuramente a quarentena, e sem qualquer planejamento e coordenação, “podemos caminhar para uma combinação de epidemia muito forte, economia esfacelada e um presidente que não está à altura do cargo”.

Nesse cenário, ele teme que eventual onda de agitação social, com saques etc., possa levar a um cenário extremo, como uma tentativa de “fujimorização” (referência ao “autogolpe” do presidente peruano Alberto Fujimori em 1992) por Bolsonaro, ou a tentativa de destituição do presidente brasileiro, cuja via institucional seria o impeachment.

Ambos os cenários seriam confusos, porque Bolsonaro não tem apoio suficiente das Forças Armadas para tentar um fechamento, ainda que parcial, do regime, nem as forças contrárias ao presidente têm força suficiente para passar por cima dos cerca de 30% dos brasileiros que ainda gostam do mandatário, uma parcela dos quais de forma militante e estridente.

O mais angustiante, para o analista, é que, apesar da dificuldade de a situação caminhar para algum desses cenários “extremos”, a postura crescentemente aventureira e radical de Bolsonaro também não aponta na direção de uma acomodação.

Para Octavio Amorim Neto, cientista político da Ebape/FGV, há um padrão previsível no comportamento do presidente, que ele mantém em tempos bons ou ruins, definido por quatro características: não assumir os custos de decisões política do seu governo, identificar sempre inimigos que conspiram contra ele, partir para o ataque em relação a estes inimigos e criar cortinas de fumaça para esconder fatos que o desagradam.

“Bolsonaro é um presidente robótico, que choca, mas não surpreende; o problema é que, agora, é com esse repertório extremamente limitado que o presidente enfrenta a maior crise sanitária mundial em 100 anos, desde a febre espanhola”, diz o pesquisador.

Amorim nota que Bolsonaro no momento destoa inclusive de outros populistas de direita no mundo (inclusive Trump, a quem costuma emular) que, depois de um primeiro momento de minimizar a crise, passaram a levá-la mais a sério.

Como o analista político mencionado acima, o pesquisador considera a possibilidade de impeachment de Bolsonaro muito complicada agora, mas acrescenta que “qualquer presidente que tivesse se comportando como Bolsonaro numa crise desta magnitude, e que não tivesse o respaldo que ele tem dos militares, já estaria à beira da destituição”.

De qualquer forma, a evolução da epidemia no Brasil nas próximas semanas deve ser decisiva para o cenário político adiante. Se o sistema de saúde entrar em colapso e os óbitos se empilharem, como na Itália e na Espanha, o Brasil pode viver momentos históricos de extrema gravidade.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/3/2020, sexta-feira.

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