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Bolsonaro e a maré antineoliberal

Presidente brasileiro parece mais capaz de resistir aos ventos contra o liberalismo econômico que sopram da Argentina, Chile e de outros países da América do Sul.

Fernando Dantas

30 de outubro de 2019 | 13h57

No Chile e na Argentina, o liberalismo encarnado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, está tomando uma coça em termos políticos.

Nesse caso, não interessa a realidade dos fatos (o liberalismo falhou ou não falhou?), mas sim a força da narrativa. E o simbolismo da volta dos peronistas ao poder na Argentina e das maciças manifestações populares no Chile, o modelo liberal da América Latina, é inegável.

Mas será que essa onda vai chegar ao Brasil? Aqui, a resposta é bem mais complicada.

Em primeiro lugar, por mais que Guedes encarne para a elite bem pensante o que importa no governo Bolsonaro, para a massa dos seus eleitores a política econômica liberal está em segundo plano. Bolsonaro foi eleito em boa parte pelo seu discurso superconservador em costumes e valores.

Já Macri e Piñera têm um perfil de centrodireita moderna, liberais na política (embora o argentino tenha quase só ficado no discurso), e bem mais “soft” na área de valores. Assim, acabam sendo presidentes mais associados justamente à pauta econômica, e os revezes neste front provocam estragos mais fortes e imediatos.

Em segundo, embora a atual onda de protestos na América do Sul esteja de fato atingindo de forma mais incisiva governos de centro-direita, a esquerda no poder em alguns países também está sob pressão: veja-se os protestos contra a quarta reeleição de Evo Morales e o endurecimento da disputa no Uruguai, que foi para o segundo turno.

Na América Latina, fatores internacionais tendem a afetar conjuntamente quase todos os países, como mostra o trabalho dos cientistas políticos Daniella Campello e Cesar Zucco, da Ebape.

Eles criaram um índice de “bons tempos econômicos” para a América Latina, baseado apenas nas taxas de juros americana (quanto mais altas, pior) e o valores das commodities (quanto mais altas, melhor). Os dois pesquisadores verificaram que o indicador se correlaciona muito bem com a capacidade de presidentes na região se reelegerem ou elegerem seus sucessores.

Os juros estão baixos para padrões históricos, mas as commodities estão em baixa relativamente ao período de 2011 a 2014, o que afeta a popularidade de boa parte dos governos da América do Sul, em particular.

Contudo, apesar dessa tendência geral que afeta toda a região, os impactos específicos estão sujeitos às peculiaridades de cada país, na visão de alguns analistas.

Para Carlos Pereira, cientista político da Ebape-FGV, a situação chilena parece com a do Brasil em 2013, e tem uma dinâmica de reversão de expectativas. No Brasil, o aumento do acesso a bens de consumo na era Lula teria criado cidadãos mais exigentes, que em 2013 foram as ruas exigir melhoras nos precários serviços públicos brasileiros.

No Chile, pode estar acontecendo um processo semelhante, mas de maior amplitude temporal. Por décadas, o país teve um desempenho socioeconômico superior ao da região, o que – como no caso brasileiro – cria o chamado “paradoxo de Tocqueville”, como observa Marcus Melo, cientista político da UFPE: isto é, a revolta surge após um período de melhora. O avanço socioeconômico continuado cria expectativas de progresso permanente, e, quando estas são frustradas, a insatisfação popular se mobiliza contra o sistema.

No Chile, o gatilho está ligado ao desempenho econômico mais comedido nos últimos anos. Adicionalmente, como observa Melo, o Chile tem uma superelite dominada por meia dúzia de famílias, que controla os negócios e a política nacional de uma forma sem paralelos em outros países da região. Outra particularidade chilena são as baixas aposentadorias do sistema privatizado.

A revolta, nesse caso, também pode estar ligada a uma repactuação da distribuição do poder econômico e político entre a elite e o resto da população.

Já na Argentina, como observa Pereira, trata-se de um caso bem distinto de uma tentativa de ajuste liberal, após um período populista, que não funcionou – seja pela insuficiência de medidas, seja pela indisposição da sociedade em pagar a conta.

De qualquer forma, não parece que os levantes e turbulências em outros países da América do Sul constituam um motivo de grande alarme para o governo Bolsonaro.

A situação do Brasil é a de um país que sai muito devagar de uma recessão devastadora, mas com a economia bem equilibrada, e com um presidente eleito em parte por bandeiras conservadoras não econômicas. É uma conjuntura bastante distinta daquela dos nossos vizinhos e aparentemente menos vulnerável a uma eventual “onda contra o neoliberalismo”.

Os grandes adversários do presidente continuam a ser ele mesmo e o seu círculo íntimo, ao criarem conflitos políticos inúteis que aumentam a incerteza e inibem os investimentos.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 20/10/19, terça-feira.

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