Bolsonaro e a “torcida organizada”

Ao se recusar a caminhar para a centro-direita, Bolsonaro repete padrão de muitos políticos populistas mundo afora, que tentam preservar sua base fiel e fanática, que não deserta diante de nenhum erro ou escândalo, com exceção de "vender a alma" ao establishment centrista.

Fernando Dantas

09 de abril de 2019 | 10h02

A pesquisa do Datafolha de domingo (7/4) revelou que o eleitorado brasileiro está dividido em terços: os que acham o governo Bolsonaro bom ou ótimo, os que acham ruim e péssimo e os que acham regular.

Como já amplamente observado, Bolsonaro tem a pior avaliação, a esta altura do mandato, de presidente eleito pela primeira vez, desde a redemocratização do País.

Não é boa notícia para um governo que tem pela frente a tarefa política imensamente difícil de passar uma reforma da Previdência que renda economias fiscais de R$ 1 trilhão em um ano, ou pelo menos algo na casa de R$ 700 bilhões a R$ 800 bilhões.

Mas ainda não é fim de jogo para Bolsonaro. É preciso ver como a avaliação presidencial evoluirá nos próximos meses. De toda forma, o governo, em vez de lua de mel, já está na situação de – para resgatar uma metáfora do passado recente – atravessar uma pinguela balouçante. O risco de desabar não é trivial.

Uma possível leitura desses três primeiros meses de governo é que Bolsonaro montou essa arapuca para si mesmo simplesmente por falta absoluta de inteligência política.

O presidente recusou-se a caminhar na direção da centro-direita, e deu carta branca para seus filhos radicais e para o “olavismo”, não só em termos da ocupação ministérios (alguns de grande importância), como Educação, Relações Exteriores e da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, mas também para atacarem os militares no seu governo, o Congresso e Rodrigo Maia, presidente da Câmara.

Adicionalmente, o próprio Bolsonaro, por meio das redes sociais, continuou a insuflar a polarização da campanha presidencial, como nos “tweets” de Carnaval em que postou para seus milhões de seguidores uma cena pornográfica nas ruas de São Paulo.

Naturalmente, todo o ruído extremista produzido por essas escolhas do presidente não agradou a parte dos seus eleitores mais moderada, e que votou nele basicamente por preferi-lo ao PT. Adicionalmente, a política radical tem o condão de inflamar não só correligionários como também inimigos. Dessa forma, explica-se por que se cristalizou o terço de brasileiros que considera o governo Bolsonaro ruim ou péssimo.

Mas a visão de que o presidente cometeu um erro estúpido ao não caminhar para o centro –  e ponto final – talvez simplifique demais uma história um pouco mais complexa.

Bolsonaro não só se elegeu num momento de extrema polarização política no Brasil, como é fruto e grande beneficiário deste fenômeno.

E talvez já não seja realista almejar um apoio mais amplo da sociedade, como o que caracterizou o início dos primeiros mandatos dos outros governos da redemocratização.

Um pequeno exercício mental contrafactual. Se Haddad tivesse sido eleito, não é bem capaz que, logo no início de seu mandato, já contasse com um terço de eleitorado ferozmente hostil a ele, correspondente aos brasileiros que se tornaram visceralmente antipetistas?

Bolsonaro elegeu-se como o outsider (ainda que, com décadas na política, isto soe estranho) que iria governar sem a velha política “podre” e iria limpar o Brasil dos males reais e imaginários do petismo e do esquerdismo em geral. O risco de tentar caminhar para o centro é o de que o presidente passe a ser visto pelo seu eleitorado mais fiel como um traidor e “mais do mesmo”.

Quando se observa a cena política global, dá para notar que populistas sempre têm grande temor de perder sua base mais fanática. Supor que todos esses governantes estão errados (taticamente) é talvez um excesso de pretensão dos observadores centristas.

O fato é que, enquanto não são vistos como traidores, os populistas – de esquerda e de direita – gozam de uma lealdade ferrenha das suas “torcidas organizadas”. Não importa quantos escândalos e quantas mentiras, Trump vêm mantendo um apoio de cerca de 40% dos americanos que é singularmente estável. Não é muito, mas é sólido.

Essa situação contrasta com a de candidatos centristas, como Macron, na França, cujos eleitores são extremamente exigentes em relação ao comportamento ético e político do candidato ungido (o mesmo vale, por exemplo, para Justin Trudeau, no Canadá). Qualquer deslize, a popularidade derrete, e este processo não se interrompe quando se chega à “torcida organizada” (como no caso dos populistas). Porque, na verdade, o centro não tem torcida organizada, o que talvez seja a sua grande fragilidade em tempos de polarização.

A aposta de Bolsonaro no extremismo, portanto, não é tão estúpida quanto parece ser, porque esta opção se coloca contra um risco palpável para candidatos radicais – perder o apoio da sua base superfiel.

Feita essa extensa ressalva, é importante ponderar que, por outro lado, o que foi escrito acima não significa que a opção de Bolsonaro tenha sido acertada.

Para além (ou talvez se pudesse dizer “aquém”) de qualquer estratégia, há erros puros, simples e grosseiros. A manutenção por tanto tempo de Ricardo Vélez na Educação (ele foi demitido hoje, mas por um substituto que parece comungar da mesmas obsessões), por exemplo, só teve lados negativos. O ministro já tinha sido deserdado há bastante tempo pelo seu mentor, Olavo de Carvalho, e, portanto, já não havia qualquer ganho junto à torcida organizada. Por outro lado, o caos no Ministério, com a ridícula sequência de trocas de pessoas em cargos chave, passa uma impressão de governo bagunçado – algo que atinge muito mais o eleitor bolsonarista moderado e mediano do que polêmicas como o “nazismo de esquerda”, por exemplo, por mais repulsivas que sejam.

Adicionalmente, a arte de um governo bolsonarista seria justamente a de administrar o delicado balanço entre agradar a base mais radical e manter o apoio do eleitor mediano. Simplesmente escolher um lado, no caso, a torcida organizada, e pisar no acelerador é abrir mão daquilo que supostamente um político melhor sabe fazer – isto é, política.

Mas o ponto de não retorno ainda não chegou para Bolsonaro, e ainda é possível reequilibrar o atendimento às demandas contraditórias que pesam sobre o seu governo. Porém, se continuar cegamente na mesma toada e a popularidade continuar a cair, Bolsonaro pode se ver em lençóis efetivamente muito maus dentro de pouco tempo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/4/19, segunda-feira.