Bolsonaro e o extremismo

Os riscos políticos que Bolsonaro assume ao não fazer – como deu sinais de que pudesse fazer, logo após sua vitória eleitoral – uma caminhada na direção a centro-direita.

Fernando Dantas

12 de março de 2019 | 18h20

Link para a minha análise, no Estadão de 8/3, sobre os infames tweets carnavalescos de Bolsonaro.

E abaixo, a versão um pouco maior do mesmo artigo, que saiu no Broadcast em 7/3:

“Não se muda time que está ganhando” é um conhecido dito da sabedoria popular, que poucas pessoas sensatas negariam ser verdadeiro para a maioria das situações. O grande estrategista, no entanto, é aquele que consegue mudar o time antes de começar a perder – e, portanto, quando ainda está ganhando, ou no mínimo empatando. Essas são as decisões mais difíceis, que exigem verdadeira maestria.

“Mudar o time” pode ser visto como uma metáfora para mudanças em geral – da forma de jogar, da própria estratégia. Saber o momento de alterar um esquema tático vitorioso é fundamental na trajetória de líderes bem-sucedidos.

O cientista político Octavio Amorim Neto, da Ebape/FGV, nota que Jair Bolsonaro é um político que construiu uma carreira política vitoriosa baseada na radicalização e na polarização. Foi assim que ele disputou e conquistou inúmero mandatos parlamentares e, finalmente, a própria Presidência da República.

A partir dos tweets presidenciais com uma cena pornográfica no carnaval de rua de São Paulo e com uma pergunta sobre o que significava uma expressão em inglês referente a uma prática sexual não convencional realizada pelos foliões do vídeo, instalou-se entre os analistas políticos uma discussão que pode ser sintetizada de forma esquemática em duas interpretações (é claro que vários posicionamentos foram mais nuançados e têm elementos tanto de uma como da outra).

A primeira visão é que os tweets foram um impulso tosco e mal pensado do presidente, que resultaram num erro que pode até atrapalhar a aprovação da reforma da Previdência e a condução da parte “séria” do governo. A desvalorização do dólar no pós-Carnaval seria uma reação do mercado à mancada presidencial, nessa narrativa.

A segunda interpretação é que a ação nas redes sociais durante o Carnaval é parte de uma estratégia bem mais planejada do que se julga. Bolsonaro estaria cultivando o seu núcleo duro de apoiadores muito conservadores, que veem o combate ao tipo de comportamento dos protagonistas do vídeo como um objetivo importante do governo e uma das razões pelas quais votaram no atual presidente. Alguns apoiadores podem até ter achado excessivo que Bolsonaro tenha exposto as famílias brasileiras ao vídeo, mas se escandalizaram bem mais com o conteúdo em si do que com sua divulgação.

O presidente, portanto, estaria atiçando a polarização entre conservadores e liberais em costumes (estes últimos podem deplorar que cenas como aquela ocorram publicamente, mas consideram que são muito mais a exceção do que a regra no Carnaval, e certamente não pensam que isto seja um dos grandes problemas nacionais).

Pessoalmente, penso que as duas visões não são completamente excludentes. Líderes populistas carismáticos, como Bolsonaro, muitas vezes guiam-se por impulsos, mas isto não quer dizer que haja ausência de uma estratégia de fundo. A estratégia é justamente a de explorar o suposto “feeling” excepcional do líder no trato com as massas.

A reação inicial que nos chega pela mídia convencional e mesmo pelas redes sociais (onde cada um está de certa forma aprisionado pelas “bolhas” da sua própria origem social e formação) não é um preditor muito confiável do verdadeiro impacto na sociedade como um todo. O tempo dirá o quão grave foi o erro dos tweets de Bolsonaro, se é que de fato foram um erro.

Entretanto, numa visão mais de médio e longo prazo, como analisa Amorim Neto, efetivamente a ação recente do presidente nas redes sociais é preocupante em termos das perspectivas de Bolsonaro na dificílima agenda de governar o País.

A razão, retomando o fio inicial da coluna, é que o presidente parece aferrado à forma de jogar com que sempre ganhou, e reluta em abandoná-la – mesmo tendo sinalizado anteriormente que este seria o caminho mais apropriado.

Nos discursos que fez no momento de sua vitória e posse, Bolsonaro sinalizou de forma geral que caminharia para fazer um governo de centro-direita. Apesar de alguns trechos mais agressivos, especialmente no pronunciamento no Palácio do Planalto, a mensagem geral foi de respeito à democracia e de arrumação da economia.

Desde a posse, entretanto, espicaçado pelo teor ideológico mais radical dos seus filhos, e preso ao esquema vitorioso de jogo de toda uma vida política, Bolsonaro hesita em assumir o figurino presidencial mais sóbrio da centro-direita. Forçar o suposto superministro Sergio Moro a recuar da nomeação de Ilona Szabó para um conselho da área de segurança foi um momento desse tipo. Os tweets do Carnaval, porém, pareceram um movimento ainda mais forte na mesma direção, quase como se o presidente tivesse efetivamente desistido da caminhada na direção do centro.

Amorim Neto pensa que as chances de insucesso do governo Bolsonaro aumentam se o presidente de fato não der esse passo na direção da centro-direita, que hoje o pesquisador vê como sintetizada na figura do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (que, aliás, vem dando sinais de insatisfação com o posicionamento do governo diante da batalha da reforma da Previdência).

Para o cientista político, se o presidente permanecer teimosamente no campo da direita (ou até extrema-direita, eu diria), este vai ser um governo extremamente polarizador que terá muita dificuldade em estabelecer uma maioria parlamentar de 60% para aprovar a reforma da Previdência.

“Bolsonaro tem que liderar e coordenar o projeto legislativo, tem que usar todos os instrumentos da política, tem que fazer concessões pragmáticas e programáticas, desde que não firam a moralidade pública”, diz Amorim Neto.

E esse é o perfil de um líder agregador e capaz de fazer pontes, e não de um incendiário em busca de atiçar os ânimos e as tensões sociais com uma guerra cultural permanente.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/3/19, quinta-feira.

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