Bolsonaro e os pobres

Presidente perde apoio na base da pirâmide social e se arrisca ao retorno do tipo de polarização entre PSDB e PT, na qual os petistas sempre saíram ganhando. Mas recuperação da economia pode melhorar imagem de Bolsonaro junto aos pobres.

Fernando Dantas

11 de dezembro de 2019 | 12h48

O presidente Jair Bolsonaro conseguiu estancar sua queda de popularidade, segundo a última pesquisa do Datafolha, mantendo-a num nível frágil, porém não desastroso, para um presidente em início de mandato. Cerca de 30% por cento dos brasileiros gostam do governo Bolsonaro, 30% o consideram regular e quase 40% desgostam do presidente.

Essa aparente estabilidade, entretanto, mascara importantes mudanças nas características dos eleitores que aprovam e desaprovam o governo de Bolsonaro. O Datafolha mostra também que a popularidade do presidente caiu entre os mais pobres e subiu entre os mais ricos.

Em abril, 26% dos brasileiros que ganham até dois salários mínimos consideravam o governo bom ou ótimo, e 34% o qualificavam como ruim ou péssimo. Esses números mudaram em dezembro para, respectivamente, 22% e 43%.

Já entre os que ganham acima de dez salários mínimos, entre abril e dezembro, o “ótimo e bom” saiu de 41% para 44% e o “ruim ou péssimo” caiu de 37% para 28%.

Recentes pesquisas do cientista político Fernando Limongi, da EESP/FGV, mostram como, desde o início, o bolsonarismo, em sua confrontação com o lulopetismo, reproduziu parcialmente uma característica da polarização anterior, entre PSDB e PT: quanto mais pobre, mais forte a tendência ao voto petista, e, quanto mais rico, ao voto bolsonarista.

Limongi usou o nível de educação como uma aproximação da renda, analisando a distribuição dos votos nas urnas por centis (centésimos) da média do grau de educação formal dos eleitores de cada uma delas. Ele observou os resultados desse exercício no segundo turno da eleição presidencial de 2014 e no primeiro e segundo turnos de 2018, como foi descrito neste espaço recentemente.

Contudo, foi registrada uma diferença importante entre as polarizações PSDB versus PT e Bolsonaro versus PT: o ponto da escala de educação/renda em que passa a haver mais eleitores de Bolsonaro do que do PT é bem mais baixo do que no caso de PSDB versus PT. De forma simplificada, o atual presidente capturou uma fatia grande de eleitores pobres ou de classe média baixa que antes votavam no PT.

Mas se a tendência de rejeição dos mais pobres e aprovação dos mais ricos a Bolsonaro – como registrado pelo último Datafolha – continuar a se fortalecer, há o risco de a polarização entre o atual presidente e seus principais opositores ir ganhando cada vez mais o jeito da disputa anterior entre tucanos e petistas, que marcou um longo período da democratização.

E, é bom lembrar, desde que esse padrão mais ricos/tucanos contra mais pobres/petistas se consolidou, em 2006, o PSDB perdeu todas as eleições presidenciais disputadas contra o PT.

Por outro lado, é cedo para cravar que o bolsonarismo caminha para se tornar, em termos de eleitorado, muito parecido com a base eleitoral tucana.

Em sua coluna de hoje no Broadcast, meu colega Fábio Alves observou que o presidente vem fazendo algumas ações para agradar os eleitores mais pobres, como a limitação a 8% dos juros do cheque especial e expansões no Bolsa-Família.

Mas é a economia que pode estancar de forma mais decisiva a perda de popularidade de Bolsonaro entre os mais pobres, e quiçá recuperar algum terreno neste extrato social. O eleitor mais vulnerável em termos sociais é particularmente suscetível à situação econômica na hora de votar.

Grande parte da popularidade de Lula está ligada ao fato de que o ex-presidente governou o Brasil na melhor fase econômica das últimas décadas. Uma demonstração disso é que até hoje a propaganda petista é extremamente calcada na exaltação desses bons tempos econômicos, que propiciaram muito avanço social – seja pelo efeito direto no mercado de trabalho, seja pelas políticas sociais possíveis com os ganhos de arrecadação.

Não se antevê nos anos à frente nada parecido com a economia do boom de commodities da década passada, mas a possibilidade de uma retomada mais firme a partir de 2020, levando a economia a rodar a pelo menos 3% na reta final das eleições de 2022, é bem razoável. Pode ser o suficiente para Bolsonaro suavizar a polarização eleitoral entre ricos e pobres o obter um quinhão de intenções de voto destes últimos que lhe garanta o favoritismo quando for disputar a reeleição.

É um grande “se”, evidentemente, porque fatores externos (principalmente) e internos ainda podem descarrilar a retomada. Mas é mais um motivo para o governo não descuidar da agenda de reformas e de novos avanços na política econômica.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/12/19, segunda-feira.

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