Bolsonaro e seus “filhos problemas”

O que poderia ser uma poderosa família política a reforçar o presidente está se transformando, na verdade, numa armadilha que está drenando poder de Jair Bolsonaro. Seus três filhos que entraram na política causam problemas, e Carlos, o mais destemperado, ainda pode vir a fazer estragos muito sérios.

Fernando Dantas

15 de fevereiro de 2019 | 23h40

Os três filhos de Bolsonaro ativos na política criam uma situação inédita para a presidência da República. Outros filhos de presidente, ou cônjuges e parentes próximos, já criaram problemas e tiveram influência muito forte em governos do passado. Mas o que difere Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro é que eles têm também cargos eletivos e milhões de votos, conquistados na esteira do carisma e da popularidade do pai.

Dessa forma, o capital político e o impacto desses três filhos do presidente no governo são potencialmente muito maiores do que outras situações de influência da família presidencial na história brasileira, da era Vargas às peripécias de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

Em princípio, uma família unida por sólidos laços ideológicos, e na qual cada membro é capaz de amealhar milhões de votos por si próprio, seria uma poderosíssima arma política para o bolsonarismo.

Se quisesse no futuro lançar algum dos filhos para sucedê-lo na política presidencial, Bolsonaro não precisaria trabalhar com um “poste”, mas partiria de um político “self-made”, ainda que na esteira da popularidade do pai. Essa própria expectativa de continuidade teria tudo para reforçar o projeto político de longo prazo do atual presidente.

Entretanto, apesar do inegável sucesso político, o clã Bolsonaro neste início de governo está se parecendo mais com as famílias infelizes da famosa abertura de Anna Karenina, de Leon Tolstói: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”.

Aparentemente, os filhos de Bolsonaro estão dedicados a minar o poder de presidente, e não a reforçá-lo, o que lembra também algumas tramas shakespearianas de cortes reais: ciúmes, traições, revelações chocantes e emoções e atos violentos, sendo que estes últimos, graças a Deus, só poderiam ser descritos como sangrentos, no caso dos Bolsonaros, no sentido metafórico, ao contrário das peças do dramaturgo inglês.

É verdade que o primogênito, o senador Flávio Bolsonaro, não criou voluntariamente os problemas nos quais se envolveu – no sentido de que não foi ele quem propositadamente chamou a atenção da mídia, da sociedade e da Justiça para as movimentações bancárias extremamente suspeitas do colaborador Fabrício Queiroz e para a teia de relações deste e do próprio senador com milicianos (Flávio poderia ter tido um passado sem estas histórias esquisitas, mas aí já é outra conversa).

A história de Eduardo e Carlos, porém, é diferente. Os dois parecem empenhados em interferir no governo do pai, e de uma forma que vai de inconveniente, no caso do primeiro, à desastrosa, no do segundo.

Eduardo, deputado federal por São Paulo, vestiu a camisa de ideólogo “antiglobalista” do governo, próximo ao ‘soi-disant’ filósofo Olavo de Carvalho, e a ministros como Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e Ricardo Vélez, da Educação.

É uma agenda bizarra, para dizer o mínimo, eivada por teorias conspiratórias de rede social, e que tenta aproximar o Brasil de países do Leste Europeu em espiral autoritária, com os quais temos escassos laços econômicos, sociais e culturais. Na pior das hipóteses, a militância antiglobalista pode criar problemas com players importantes (para o Brasil) no comércio internacional, como os países árabes e a China.

Na Educação, a pauta ideológica de Vélez é simplesmente um imenso desvio de atenção de um dramático problema nacional: nas escolas públicas, as crianças brasileiras não conseguem atingir um nível mínimo de proficiência em língua portuguesa, matemática e ciências. Enquanto o Vietnã, com a renda per capita da Bolívia, figura na parte de cima da lista de cerca de 80 países ricos e emergentes que participam do Pisa, exame trienal de educação com alunos de 15 anos, o Brasil, duas vezes mais rico, amarga as últimas posições.

Mas é Carlos Bolsonaro, vereador pelo Rio de Janeiro, e o mais intenso e enigmático dos filhos do presidente, que parece estar se tornando verdadeira bomba, prestes a explodir, no interior do governo.

Carlos compartilha a agenda ideológica de Eduardo, mas suas últimas ações parecem mais motivadas por explosivas rixas pessoais. A sua mensagem no Twitter chamando o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, de mentiroso quebra completamente os protocolos de decoro pressupostos nas altas esferas da vida pública.

É verdade que muitos veem isso como uma atitude positiva, quiçá revolucionária, de sinceridade ante a hipocrisia habitual dos rituais do poder. Na prática, porém, os atos intemperados de Carlos minam a autoridade presidencial do pai, transmitindo a aliados e adversários a impressão de que Jair Bolsonaro não controla a extrema agressividade do seu filho do meio, que pode se voltar a qualquer momento contra qualquer um, ao sabor das cismas, implicâncias e flutuações de humor do vereador.

Para quem tem pela frente o difícil e decisivo desafio de aprovar a reforma da Previdência, os três “filhos problemas” de Bolsonaro podem se provar um fardo demasiadamente pesado.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/2/19, sexta-feira.