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Bolsonaro em queda

Surpresa, surpresa, a popularidade do presidente está caindo (é ironia, por favor). Fazendo tudo ao contrário do que a maioria das pessoas querem diante da pandemia, Bolsonaro perde apoio, enquanto governadores e Congresso ganham. Mas por que o presidente age assim?

Fernando Dantas

03 de abril de 2020 | 17h22

O presidente Jair Bolsonaro sempre diz que não acredita em pesquisa de opinião pública. Portanto, não deve estar preocupado com a pesquisa XP Ipespe, da XP Investimentos, divulgada hoje, que mostra que sua popularidade caiu nas últimas semanas, quando o País foi atingido pela crise do coronavírus.

(pesquisa do Datafolha também divulgada hoje corrobora todos os pontos desta coluna, escrita pouco antes da sua divulgação)

Quem diria, não (contém ironia)? Em relação à Covid-19, a pesquisa XP Ipespe mostra o que, para a maioria dos observadores, parece óbvio e ululante. Cresce o medo da doença, a maioria das pessoas coloca o risco a curtíssimo às suas vidas e às de entes queridos como algo mais importante que a economia, e uma acachapante maioria de 80% considera que o isolamento social é a melhor forma de se prevenir e tentar evitar o aumento da contaminação pelo coronavírus.

E quem poderia imaginar que os governadores e o Congresso, que são pelo isolamento, de acordo com o consenso científico mundial, teriam uma incomum elevação da sua popularidade, enquanto Bolsonaro, que quer que as pessoas voltem a trabalhar, perdeu apoio?

É claro que qualquer um poderia imaginar e foi o que aconteceu. Segundo a pesquisa XP Ipespe, a popularidade dos governadores do Sudeste – como João Doria, de São Paulo, e Wilson Witzel, do Rio, que decidiram pelo isolamento social em seus Estados – saltou de 22% de bom/ótimo, em março, para 37% em abril, enquanto o ruim/péssimo caiu no mesmo período de 27% para 19%. Todas as comparações são entre o início de março e o início de abril.

Nas outras regiões, onde a maioria dos governadores agiu como seus colegas do Sudeste, movimentos na mesma direção, e até mais intensos, ocorreram.

E até o Congresso, o patinho feio da popularidade entre os Poderes do Brasil, viu sua cota de bom/ótimo subir de 13% para 18%, e a de ruim/péssimo cair de 44% para 32% entre março e abril.

Já no caso da avaliação do governo Bolsonaro, o bom/ótimo caiu de 30% para 28%, próximo da margem de erro, mas o ruim/péssimo subiu de forma mais significativa, de 36% para 42%. Sempre entre março e abril. A expectativa para o restante do mandato de Bolsonaro caiu de 38% de bom/ótimo para 34%, enquanto o ruim/péssimo subiu de 33% para 37%.

Parece até pequena a piora da popularidade presidencial, especialmente a queda de bom/ótimo na avaliação do governo. Mas um dos resultados da pesquisa indica que Bolsonaro deveria colocar as barbas de molho (ressalva: este colunista tem zero de esperança que isto ocorra).

Em março, apenas 2% da população conhecia alguém infectado pelo coronavírus. Em abril, esse número subiu para 9%. Segundo a maior parte dos especialistas, o Brasil caminha para uma explosão de casos e mortes durante abril. O que acontecerá quando uma parcela muito maior da população conhecer pessoalmente pessoas infectadas, pessoas que foram hospitalizadas e ficaram em estado grave e pessoas que morreram por causa da doença qualificada pelo presidente de “resfriadinho”?

Finalmente, vem a parte mais difícil desta coluna: por quê?

Por que o presidente Jair Bolsonaro age de uma forma que – tudo indica – lhe será prejudicial politicamente?

Há teorias sobre isso. Uma popular é que se trata de uma “aposta de alto risco”. Assim, se o pico de internações e mortes não for tão traumático quanto o previsto, o presidente dirá que alertou que não era tão grave (ignorando o fato de que, se um cenário mais benigno ocorrer, terá sido por causa da quarentena por ele tão criticada) e jogará a culpa pela recessão nas costas dos governadores e do Congresso.

Ressalvando que nunca fui entusiasta da tese da sabedoria inata do eleitor, não há como desconfiar de que apostar que as pessoas condenarão os governadores pela recessão e absolverão Bolsonaro pelas mortes da Covid-19 é exigir demais da credulidade da população brasileira.

Mas há também interpretações menos implausíveis do comportamento presidencial.

Em recente coluna neste espaço, o cientista político Octavio Amorim Neto (Ebape/FGV) notou que, como político, Bolsonaro tem um repertório extremamente limitado de ações, o que o torna até “robótico”.

Rafael Cortez, analista político da consultoria Tendências, acrescenta que a Covid-19 e seus desdobramentos criaram um ambiente político que se choca com o modus operandi do bolsonarismo.

A gigantesca ameaça representada pelo vírus criou um inimigo comum, que leva os diferentes grupos políticos e sociais à busca de entendimento, acordos e pactos, e instila em muitos participantes da vida pública doses consideráveis de moderação.

Num ambiente como esse, chefes de Estado podem simplesmente se deixar levar pela maré, como coordenadores do esforço nacional contra a pandemia, e se beneficiar em termos de popularidade. É algo que vem ocorrendo em países como Alemanha, França, Argentina e até nos Estados Unidos, depois que Trump mudou de postura e passou a levar a sério a Covid-19.

Contra o “prestígio consolidado”

Mas por que Bolsonaro não embarcou nessa canoa?

Segundo Cortez, porque o bolsonarismo é um movimento que se alimenta do tensionamento constante, e que emergiu não só da ruptura com a política tradicional, mas também com o “mainstream” de diversas áreas da sociedade, como os veículos de comunicação, as universidades etc.

O analista nota que o bolsonarismo se volta contra “tudo o que expressa o prestígio consolidado”.

Assim, quando, diante de uma ameaça sem precedentes, as instituições “mainstream” – a grande imprensa, os cientistas – exibem, de forma evidente para a sociedade, as virtudes que lhes deram o “prestígio consolidado”, o bolsonarismo fica em corner.

Outro fator, para Cortez, é que o “desgoverno” que Bolsonaro promove desde o início do seu mandato – como posturas destrutivas, sem muita motivação lógica, em temas como meio ambiente e relação com o Congresso – entra , com a crise, numa fase de escrutínio muito mais intenso pela sociedade. Governar mal neste momento pode custar muitas vidas humanas em curto prazo, e as pessoas percebem agudamente este risco.

Seja como for, ainda parece estranha a forma como Bolsonaro e seu círculo de filhos e colaboradores mais fanáticos prosseguem em sua marcha de desatino, que pode muito bem vir a prejudicar eles mesmos. Difícil não pensar numa certa lacuna cognitiva.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/4/2020, sexta-feira.