Bolsonaro está no jogo

Combinação de economia em recuperação com abrandamento da pandemia (se se confirmar) cria condições para o presidente retomar seu projeto de poder, que inclui a reeleição em 2022.

Fernando Dantas

10 de setembro de 2020 | 18h30

Quando se olha o principal gráfico de mortes por Covid-19 no mundo do jornal britânico Financial Times, o que desponta é  a grossa faixa cor de vinho, em cima, em que está escrito “Brazil’. Tamanho destaque para um país individual só aparece, na figura, nas faixas cinza e vermelha, respectivamente dos Estados Unidos e da Índia.

O gráfico, num dos mais importantes periódicos econômicos do mundo, reforça a péssima imagem atual do Brasil. Não era suficiente ter um presidente de extrema-direita, saudoso da ditadura, inimigo dos direitos humanos, hostil às minorias e que deixa a Amazônia ser destruída. O Brasil ainda tinha que ser, por causa do negacionismo de Bolsonaro, um dos países mais devastados pela pandemia.

Ironicamente, entretanto, por vezes é nos momentos mais negativos que surgem sinais, comumente despercebidos, de que o jogo pode estar virando.

É sempre bom não confundir a imagem, cada vez pior, do atual presidente junto à comunidade internacional e à intelligentsia nacional, com as chances reais de ele ser bem-sucedido em seu projeto de poder.

Na verdade, em meio à turbulência da pandemia, que ele contribuiu para tornar ainda mais caótica, o governo Bolsonaro foi sendo reinventado aos trancos e barrancos.

Agora, após muitos embaralhamentos, o presidente parece contar com um conjunto de cartas que lhe permite jogar para vencer – tendo como horizonte, claro, o seu projeto de reeleição em 2022.

A começar pela pandemia. A fotografia do Brasil, como notado no início desta coluna, ainda é muito ruim, mas nas últimas semanas o filme mudou.

Tomando-se a média diária semanal das mortes por Covid-19 reportadas a cada dia, a partir dos dados divulgados pelo Ministério da Saúde, caiu-se de um pico de 1.097 em 25 de julho para 680 ontem, uma queda de 38% em 46 dias.

Uma linha de tendência muito simplória a partir da evolução da média diária semanal entre 25/7 e ontem mostra o número de mortes caindo abaixo de 200 no final de dezembro.

Evidentemente, é um mero exercício, sem valor preditivo, apenas para dar uma noção do que foi a desaceleração recente. Mas não é impossível imaginar, por outro lado, que esse ritmo de queda pudesse até se acelerar.

A grande questão é como isso se combina com a questão econômica.

Antes, porém, é preciso pensar um pouco mais sobre a evolução da pandemia. Muitas pessoas ficaram escandalizadas com as praias lotadas no recente feriadão (com “destaque” para o Rio). E é, de fato, sinal de um traço de indisciplina e descaso dos brasileiros em relação ao qual nós mesmos tendemos a ser muito críticos.

Mas existe outra leitura do mesmo fato, que em nada anula a anterior. A população está se arriscando a ir em massa às praias porque a percepção do risco trazido pela Covid-19 caiu. Em parte, pode ser irresponsabilidade, mas em parte pode ser a identificação de que, efetivamente, o risco caiu comparado ao de alguns meses atrás. Os números não desmentem essa hipótese.

Como o Brasil não suprimiu a circulação do vírus como países do Leste Asiático e a Nova Zelândia, por exemplo, não dá para não cogitar que aqui a tal “imunidade comunitária (ou “de rebanho”, nome rejeitado por alguns)” não tenha ficado mais próxima em várias partes do País.

Aqui se faz necessária uma ressalva. Longe do colunista a pretensão de fazer as vezes de epidemiologista. Trata-se apenas de pensar em cenários. Supondo que a queda de mortes esteja ligada a um gradativo enfraquecimento da pandemia antes da vacina, como isso afetará a economia?

O Brasil, como notado neste espaço em coluna recente, está entre os países cuja economia, especialmente no contexto latino-americano, está se recuperando relativamente bem do pior momento provocado pela pandemia, no segundo trimestre.

Essa retomada, porém, seguindo um padrão global, está ocorrendo muito mais nos produtos industriais do que nos serviços. O problema dos serviços é justamente o de que foram diretamente impactados pela quarentena, e continuam sofrendo com o distanciamento social voluntário. Os restaurantes abriram, mas muita gente tem medo de ir jantar fora.

Ora, se as pessoas já lotaram as praias no estágio atual da pandemia, com a percepção de risco deste momento, como elas se comportarão caso a tendência de abrandamento registrada desde final de julho se mantenha ou se aprofunde? Não parece fantasia trabalhar com pelo menos um cenário em que o retorno dos serviços ao longo dos próximos meses surpreenda positivamente.

Existem, é claro, inúmeros riscos que podem atrapalhar a consolidação de um pós pandemia mais tranquilo. O primeiro é uma nova onda. Nada garante que a tendência de final de julho até aqui vá se manter.

Existe também o quebra-cabeça da gestão social, política e econômica da crise. O auxílio emergencial vai acabar, algo deve ser posto no lugar, mas inúmeras vezes menor. Será preciso que a renda do trabalho, destroçada pela crise, volte muito rápido com a reabertura dos serviços para suprir a defasagem entre o auxílio e o novo benefício.

Isso é importante tanto para a economia quanto para a popularidade, que é o esteio da governabilidade.

E alguma costura política terá que ser feita para que a âncora fiscal do teto de gastos seja percebida pelos agentes econômicos como preservada, apesar das novas despesas.

Se isso significa manter o teto intacto e só aprovar despesa equivalente ao que for cortado, ou se eventual engenharia política e fiscal entregará o que é preciso – trata-se de uma dúvida que só será tirada quando os mercados reagirem ao que finalmente for decidido. O ambiente externo de extrema liquidez joga a favor a tolerância, ma no troppo.

Bolsonaro, no momento, tem popularidade razoável, organizou-se um pouco melhor no Congresso e administra uma economia que, com um pouco de bom senso, pode trazer surpresas positivas em 2021.

Para todos que não gostam dele, o presidente se mantém como um adversário que não deve ser subestimado.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/9/2020, quinta-feira.

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