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Bolsonaro mexeu no vespeiro bolsonarista

Escolha de Augusto Aras para chefiar PGR desagradou ao núcleo duro dos eleitores do presidente, mas analistas políticos não veem maiores impactos no curto prazo.

Fernando Dantas

06 de setembro de 2019 | 16h40

A escolha por Jair Bolsonaro de Augusto Aras para chefiar a Procuradoria-Geral da República (PGR) foi talvez o momento mais delicado até agora do presidente com o núcleo duro da sua base de apoio social.

Aras é visto como um recém e duvidosamente convertido esquerdista pelos eleitores que têm o antipetismo e a fé fervorosa no caráter purificador da Lava-Jato como eixos basilares do seu posicionamento político.

Nas redes sociais, essa turma não fez por menos, e deixou claro o seu desapontamento com a escolha do presidente.

O momento é delicado. Desde o início do seu tumultuado mandato, Bolsonaro perdeu muita popularidade. Recentemente, sua rejeição deu um salto, consolidando-se não muito longe de 40% do eleitorado, nas últimas pesquisas.

Por outro lado, nota-se uma certa resistência de cerca de 30% do eleitorado que considera o presidente ótimo e bom, e outros 30% que o classificam como regular. É essa a linha de defesa de Bolsonaro contra a ira crescente de uma parte grande (porém não majoritária) Da população contra o seu governo.

O presidente nada faz para cativar os eleitores fora da sua base mais fiel de apoio, mas esta tem merecido todos os mimos – que se expressam na forma de ataques virulentos e grosseiros aos inimigos reais e imaginários da tropa bolsonarista.

Dessa forma, dar uma mancada junto a esse eleitorado cativo, como parece ser a nomeação de Aras, parece um jogo arriscado.

Analistas políticos ouvidos pela coluna, entretanto, não veem maiores riscos no curto prazo. A médio prazo a história é outra: com seu estilo truculento, Bolsonaro vai colecionando inimigos, que em algum momento de fraqueza presidencial podem tentar dar o troco.

Ricardo Ribeiro, analista da consultoria MCM, vê um bom momento na governabilidade econômica, ilustrado pela forma como rapidamente se produziu um alinhamento entre Bolsonaro, Paulo Guedes e Rodrigo Maia contrário à flexibilização do teto de gastos, quando esta questão surgiu recentemente.

Quanto ao efeito da nomeação de Aras junto ao eleitorado bolsonarista, ele não crê que será significativo:

“Deve ficar mais no bochincho de rede social, não creio que fará diferença expressiva em termos de pesquisas de popularidade”.

Ribeiro nota que Aras deve assumir a PGR mostrando posições bem ao gosto conservador do eleitorado do presidente, o que pode amenizar a rejeição inicial.

Rafael Cortez, analista político da consultoria Tendências, frisa que no atual modelo de “governabilidade parlamentar”, a popularidade presidencial nem é tão decisiva no curto prazo, e o maior efeito do ruído constante provocado pelas ações presidenciais se dá na percepção de risco, o que pesa no cenário econômico.

Os dois especialistas veem no comportamento de Bolsonaro elementos de uma disputa de poder no interior da centro-direita e direita. O presidente aparentemente busca ser a única alternativa nesse campo para as próximas eleições presidenciais, num jogo complexo de ataques e críticas a potenciais candidatos que hoje estão fora do governo, como Doria e Huck, e de controle e contenção de Moro, seu ministro da Justiça.

A avaliação superior da população sobre Moro do que sobre Bolsonaro, aponta Cortez, faz dessa relação um ponto extremamente delicado da estratégia política do presidente – que não pode prescindir do seu ministro da Justiça, mas ao mesmo tempo o vê como potencial competidor.

Como pano de fundo para esse xadrez político, com momentos de MMA, há a economia, que teima em se recuperar de forma aflitivamente lenta, e dependente do instável humor dos mercados globais.

A sensação é que Bolsonaro consegue empurrar com a barriga até 2020, se o cenário externo deixar, o extravagante circo do seu governo. Ano que vem, entretanto, o benefício da dúvida, tanto do eleito fiel quanto do menos fervoroso, deve cair rapidamente. Resultados serão cobrados na economia e desapontamentos na política calarão mais fundo. O relógio está correndo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/9/19, sexta-feira.

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