Bolsonaro, o pobre e o Twitter

Presidente vem confundindo a gritaria de uma minoria radical e "superideológica" com os anseios da maioria dos eleitores que o elegeu.

Fernando Dantas

29 de abril de 2019 | 22h49

Um editorial e uma reportagem publicados na edição desta segunda-feira, 29/4, do Estadão dão pistas sobre um provável erro que Jair Bolsonaro vem cometendo na estratégia política deste início de mandato.

O editorial, sobre o Twitter, menciona uma pesquisa do Pew Research Center que indica que o papel da rede social “como uma espécie de microcosmo da sociedade tem sido supervalorizado”. Com números que revelam divergência entre o Twitter e a sociedade como um todo (americana, no caso específico) em indicadores médios de idade, renda e escolaridade, e também em preferências partidárias, o editorial conclui que esta rede social “é um mundo à parte, ainda que sua importância para as relações humanas no século 21 sejam inegáveis”.

Já a reportagem mencionada, dos jornalistas Daniel Bramatti e Caio Sartori, manchete do jornal na edição desta segunda-feira, mostra como a aprovação de Bolsonaro caiu mais intensamente entre nordestinos e eleitores de baixa escolaridade e renda – aqueles que entraram no vagão da candidatura do atual presidente por último, e de forma relutante. A matéria relata análise do Estado com base em pesquisas do Ibope.

Em conjunto, o editorial e a reportagem parecem passar uma mensagem: há um fosso entre o militante bolsonarista ultraengajado e o eleitorado do presidente em geral. Outra informação do editorial ajuda a entender esse ponto. O grupo dos 10% dos usuários mais ativos no Twitter fazem em média cinco postagens por dia, enquanto a média dos 90% menos ativos é de apenas duas postagens por mês!

Fica claro que existe uma pequena minoria superbarulhenta na rede social em que Bolsonaro vem buscando primordialmente – como Donald Trump, nos Estados Unidos – transmitir o âmago da sua agenda conservadora na área de costumes. Essas tropas superativas dão grande repercussão aos tuítes presidenciais – seja a favor, seja contra –, como o infame episódio do “golden shower” ou agora a postagem do vídeo de uma aluna reclamando que a professora fazia doutrinação ideológica em vez de ensinar gramática.

Mas não é apenas como câmera de eco exagerada que esse grupo de militantes superideológicos desviam o foco da comunicação presidencial. Essas pessoas, que tipicamente estão mergulhadas até o pescoço na “guerra cultural” e cultuam figuras caricatas como o escritor Olavo de Carvalho – há na oposição exemplos de “supermilitância” em sentido contrário –, nutrem um radicalismo intenso que as faz receber e repercutir com naturalidade mensagens que ao resto da população parecem estranhas, bizarras e mesmo loucas pelo seu grau de extremismo.

O alarido extremista, tão característico do Twitter, abafa o discurso mais discreto da maioria menos barulhenta, e pode dar a sensação ao presidente de que uma faixa ampla do eleitorado embarcou na guerra cultural “olavista”, quando provavelmente quem de fato está neste barco é uma minoria muito menor do que aparenta ser.

Essa ilusão é tão mais prejudicial à estratégia política de Bolsonaro pelo fato de que a agenda conservadora de costumes, se tocada num tom mais moderado e que não seja percebido como “maluco” (para repetir a qualificação recente do ex-presidente Lula ao governo Bolsonaro), pode de fato ser um trunfo para o atual presidente.

A perda de popularidade de Bolsonaro entre nordestinos, pobres e pessoas de menor educação provavelmente está em grande parte ligada ao fraco desempenho da economia e à persistência do alto desemprego, um nó que, para ser desatado, exige a aprovação da reforma da Previdência com um nível não muito intenso de diluição, entre outras medidas. Com sua articulação política tumultuada e a recusa em ter uma base de apoio formal, o presidente está complicando a aprovação da reforma e outras iniciativas na seara econômica – mas não é deste erro que se está tratando nesta coluna.

Se a economia ainda não dá sinais satisfatórios de vida, Bolsonaro deveria tentar reter a aprovação dos seus eleitores mais fugidios com medidas e mensagens voltadas a este público especificamente. Iniciativas como o décimo-terceiro do Bolsa Família vão nessa direção (sem entrar no mérito sobre se distorce o espírito do programa), mas têm sido poucas e isoladas.

O presidente poderia explorar o potencial da sua mensagem conservadora em costumes para essa parcela mais ampla do público, de origem mais humilde e na qual as igrejas evangélicas penetraram profundamente. Mas o discurso e as ações apropriados para uma estratégia desse tipo são muito diferentes dos lances extremados e bizarros que o presidente e seus filhos vêm protagonizando sob a inspiração “olavista”. Tanto é que o governo anda se indispondo até com algumas das principais lideranças evangélicas do país.

O “mundo à parte” do Twitter e da militância hiperradicalizada das guerras culturais parece encantar a família Bolsonaro, mas, como observado no editorial do Estado (no tocante à rede social), deve estar longe de representar um microcosmos da sociedade brasileira, e nem mesmo do eleitorado do atual presidente. Se a banda presidencial continuar a tocar apenas para essa pequena minoria exaltada, é capaz que o auditório fique quase vazio em não muito tempo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/4/19, segunda-feira.