Bolsonaro parece que entendeu

Declarações do presidente de que o endividamento criado pelo auxílio emergencial é "monstruoso" não são garantia de que não haverá desvario fiscal, mas são mais do que jogo de cena e podem ser um freio relevante à tentação da gastança insustentável.

Fernando Dantas

20 de outubro de 2020 | 11h02

O presidente Jair Bolsonaro deu mostras de conexão com a realidade esta manhã (segunda-feira, 19/10), ao declarar que “não dá para ficar muito tempo mais com esse auxílio [emergencial], porque realmente esse endividamento é monstruoso”.

O presidente disse ainda saber que R$ 600 são pouco para quem recebe, “mas é muito pro Brasil, são R$ 50 bilhões por mês, e tem que ter responsabilidade para usar a caneta”.

Essas declarações são relevantes. Existe certa tendência a subestimar a importância de líderes políticos terem a visão correta das grandes questões econômicas.

A ideia é de que tudo é jogo de cena, que o discurso é uma coisa e a prática é outra, e que presidentes, especialmente populistas, como Bolsonaro, inevitavelmente vão estourar o caixa na tentativa de se reelegerem.

Mas as convicções dos presidentes – que, em termos econômicos, naturalmente derivam muitas vezes dos economistas e especialistas que os cercam – podem ter um papel decisivo nos acertos, erros e desastres da política econômica.

Lula, por exemplo, não teria trocado Antonio Palocci por Guido Mantega se tivesse convicção de que a política liberal e pró-mercado dos primeiros anos do seu governo era mais do que um mero expediente para acalmar o mercado no início do seu primeiro mandato.

Se o ex-presidente efetivamente tivesse uma preferência pela política econômica ortodoxa em relação à heterodoxa, o substituto não seria Guido Mantega. Mas o caldo de cultura política no qual Lula desenvolveu sua carreira, o petismo, dificilmente teria criado nele aquela preferência.

Da mesma forma, Dilma não teria ampliado e redobrado a aposta nos erros cometidos na segunda fase do governo Lula se tivesse convicção de que uma política econômica de responsabilidade fiscal, baixa inflação e menor intervencionismo estatal é fundamentalmente melhor que os experimentos heterodoxos.

Quando Dilma, aconselhada por Lula, chamou o superortodoxo Joaquim Levy para ministro da Fazenda no seu segundo mandato, foi novamente um movimento para “apaziguar” os mercados, provavelmente de forma temporária caso desse certo. Não se tratou, mais uma vez, de uma legítima mudança de visão privilegiando a abordagem liberal e ortodoxa em relação ao intervencionismo heterodoxo.

Como se sabe, Bolsonaro fez sua carreira política no baixo clero do Congresso como representante do corporativismo das forças armadas e policiais, com o complemento grotesco e imoral da defesa da ditadura, dos assassinatos pelo Estado e da tortura, além de ataques a minorias.

Muito se falou, acertadamente, que Bolsonaro nada tinha de liberal, pelo contrário, na sua visão econômica durante a maior parte da sua carreira política.

Era um defensor ardoroso de vantagens e privilégios para as categorias que representava. Adicionalmente, herdou uma pouco refletida simpatia pelo “Brasil grande” intervencionista da era Geisel, identificando-se mais com os militares dos piores “anos de chumbo”, como Médici e seu sucessor, do que com Castello Branco e sua pauta liberal em economia. Tanto que Bolsonaro se posicionou furiosamente contra a privatização da Vale.

Mas “a praia” de Bolsonaro nunca foi a economia, e sim a política miúda de buscar vantagens para policiais e militares. Diferentemente de Lula e Dilma, que fizeram carreira em partidos políticos estruturados em ideologias que em grande parte eram de teor econômico, como a heterodoxia e o intervencionismo historicamente associados à esquerda latino-americana, as ideias e convicções do atual presidente em termos de política econômica eram apenas um pequeno detalhe da sua visão de mundo.

Assim, quando iniciou sua marcha para a presidência e se associou a economistas como Paulo Guedes e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, Bolsonaro parece de fato ter absorvido alguns rudimentos instintivos de uma visão de mundo mais liberal e ortodoxa.

Isso não quer dizer, de forma alguma, que Bolsonaro esteja imune à tentação de uma aventura política de desvario fiscal. O presidente é um populista, e viu com seus próprios olhos a maravilha para sua popularidade que pode fazer uma distribuição maciça (ainda que insustentável) de dinheiro para os pobres, o auxílio emergencial.

Além disso, fora da área econômica, o que não faltam no governo são sereias políticas cantando nos ouvidos de Bolsonaro a doce canção dos gastos em programas sociais e investimentos em infraestrutura sem maiores preocupações com o amanhã.

Mas o sinal, dado pelas declarações de Bolsonaro esta manhã, de que entende que o auxílio emergencial é uma despesa “monstruosa” e não dá para ficar por muito mais tempo (melhor seria “tempo nenhum” a partir de janeiro) não devem ser subestimados como possível freio a um mergulho sem volta no populismo fiscal.

Dificilmente alguém acelera o carro em direção a um poste se compreende o que está fazendo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/10/2020.