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Bolsonaro pisca para o Congresso

O presidente dá sinais de que vai aderir à prática da troca de votos no Congresso por nomeações, típicas do presidencialismo de coalizão por ele tão vilipendiado. É um indício de pragmatismo, apesar de Bolsonaro não dar mostras de que vai atenuar o discurso radical.

Fernando Dantas

24 de setembro de 2019 | 16h21

O governo de Jair Bolsonaro dá mostras que começa a rever sua posição inicial de rechaço completo ao presidencialismo de coalizão.

Evidentemente, o discurso de criminalização da política – tanto a efetivamente criminosa como aquela que se dá com trocas dentro da legalidade e faz parte de qualquer democracia do mundo – deve ser mantido, porque faz parte da narrativa fantasiosa, em relação ao próprio histórico da família Bolsonaro, que agrada à base mais fiel do presidente.

No entanto, como revela a manchete de domingo do Estadão, Bolsonaro foi convencido por seus auxiliares políticos que é preciso usar nomeações para garantir uma base no Congresso que dê respaldo às iniciativas do governo.

Segundo a reportagem de Felipe Frazão e Renato Onofre, por não abrir mão de comandar os ministérios, a negociação será de cargos federais nos Estados.

Se essa intenção prosperar, será uma mudança e tanto no figurino do governo Bolsonaro. Será um aspecto, pelo menos, em que o desejado percurso do presidente em direção à centro-direita será realizado.

Em outras dimensões, contudo, a manutenção do discurso político feroz e polarizador índia que não há, por enquanto, nenhum sinal de arrefecimento (o discurso na ONU hoje, realizado depois da redação desta coluna, é um exemplo). Mas jogar bola com o Congresso poderia ser um primeiro indício de moderação.

Há razões mais e menos óbvias para essa possível mudança de Bolsonaro na sua relação com o Congresso.

A mais evidente de todas é que de fato ele se arrisca a virar uma rainha da Inglaterra se recusar completamente a fazer o jogo da política tradicional.

A reforma da Previdência passou na Câmara e deve emplacar também, com algumas mudanças, no Senado – isto é verdade. Mas está claro também que esse fato se deve ao protagonismo assumido pelo Congresso na agenda econômica, que já vem sendo chamado de “parlamentarismo branco”.

Em recentes declarações à imprensa, o presidente do Senado, David Alcolumbre, reforçou a ideia de que o Congresso assumiu a dianteira no processo legislativo sobre política econômica, no vácuo criado pela ausência de ação mais efetiva do Executivo.

Não é uma situação totalmente cômoda para Bolsonaro, porque Alcolumbre e Rodrigo Maia, presidente da Câmara, não estão dispostos a empreender o mesmo esforço de articulação parlamentar para a agenda de valores e costumes de Bolsonaro – como a legislação referente a armas, por exemplo. Assim, o presidente terá grande dificuldades de entregar conquistas nas bandeiras mais caras ao seu eleitorado mais fiel se não se entender com o Congresso.

Uma razão menos óbvia para a possível mudança da relação de Bolsonaro com o Congresso é que o presidente deve estar percebendo uma rearticulação das forças de centro.

A estridência radical de Bolsonaro, seus filhos, ideólogos e militantes das redes sociais desde o início do governo não parece ter sido boa para os índices de popularidade do presidente.

A sua situação hoje em termos de apoio popular ainda não é desastrosa, mas se aproximou perigosamente do ponto em que pode causar séria perda de governabilidade. É duvidoso se candidatos a prefeito e vereador no ano que vem vão querer exibir o apoio explícito do presidente em suas campanhas.

Por outro lado, há uma evidente tentativa de reconstruir uma alternativa política de centro, que passa pelas movimentações de uma constelação de personagens – não necessariamente afinados – como João Doria, Luciano Huck, Paulo Hartung, Arminio Fraga e um punhado de jovens parlamentares oriundos de programas de formação de políticos, como Tabata Amaral.

Depois da radicalização do discurso de esquerda do período final do governo petista os brasileiros desembarcaram diretamente na radicalização de direita. Não é descabido pensar que pode haver uma certa exaustão em relação à política de polarização máxima.

Bolsonaro não deve abandonar o campo entre a direita e a extrema-direita nem a estratégia agressiva, porque é desta forma que ele se criou politicamente e é o que sabe fazer.

Mas é possível que o presidente e o seu entorno, enxergando os primeiros sinais de que economia pode se aprumar, também queiram evitar a imagem de um governo puramente de exaltação ideológica, sem nenhuma capacidade prática de ditar os rumos da Nação – o que seria desmoralizante para o campo político que Bolsonaro representa.

Assim, doses homeopáticas de entendimento com a centro-direita do Congresso, que comunga de boa parte do ideário econômico de Paulo Guedes, podem ser uma fórmula para manter (ou até recuperar) as rédeas do processo político, sem comprometer a imagem radical que agrada ao seu eleitorado mais fiel.

Trata-se, entretanto, de um equilíbrio delicado, com risco razoável de desandar. Se houver a percepção de que Bolsonaro se rendeu à “velha política”, a popularidade pode piorar ainda mais. De qualquer forma, é um passo indispensável se o presidente quiser de fato comandar a pauta de transformações do País.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/09/19, segunda-feira.