Bolsonaro quer subserviência do Alto Comando

Presidente quer alinhamento das Forças Armadas institucionais ao seu projeto político, primeiro para defendê-lo de um eventual impeachment, num segundo mandato sabe-se lá para quê.

Fernando Dantas

30 de março de 2021 | 20h44

A relação de Jair Bolsonaro com as Forças Armadas atingiu um pico de dramaticidade no início desta semana, com a demissão do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, substituído por Walter Souza Braga Netto, que deixou o cargo de ministro-chefe da Casa Civil. Ambos são generais da reserva.

Todas as indicações são de que a dispensa de Azevedo e Silva por Bolsonaro deveu-se à postura do ex-ministro de evitar o atrelamento político das Forças Armadas ao atual governo.

Em sua nota de despedida, Azevedo e Silva escreveu que preservou “as Forças Armadas como instituições de Estado”.

Para um cientista social com bastante bagagem em temas militares, Bolsonaro tenta fazer, bem ao seu estilo, um jogo de trocas muito cru com as Forças Armadas.

Por um lado, “deu aos militares tudo que eles queriam”. Muitos cargos no topo e nos níveis intermediários do governo, reestruturação de carreira, aumentos salariais e verbas. Também investiu em prestigiar a carreira militar, com idas frequentes a formatura de cadetes e participação em cerimônias em geral.

Numa democracia, frisa o pesquisador, trocas por interesse fazem parte do jogo. Mas há limites. Carreiras de Estado, como a diplomacia e os militares, têm suas regras próprias, derivadas da Constituição.

O que Bolsonaro quer, no entanto, numa concepção regressiva da política numa democracia, é a subserviência total dos grupos e pessoas cujos interesses o presidente atende e promove.

O que o presidente pede das Forças Armadas é aceitação tácita ou, até melhor, o apoio explícito às suas (de Bolsonaro) ameaças mais e menos veladas às instituições democráticas.

O pesquisador frisa que a crise, que tem a ver com a insatisfação de Bolsonaro com o general Edson Leal Pujol, comandante do Exército, está ligada ao desejo do presidente de que “as Forças Armadas institucionais” se alinhem com seu governo.

Não se trata, portanto, dos oficiais da reserva que já abundam no governo em cargos de primeiro escalão, ou o pessoal da ativa e da reserva que ocupa posições intermediárias.

O objetivo presidencial agora é que o Alto Comando do Exército, Marinha e Aeronáutica tenha uma adesão de corpo e alma ao projeto político bolsonarista.

Na visão do analista, no momento o que move Bolsonaro ainda é o medo de destituição por impeachment. Num eventual segundo mandato, poderia haver até uma tentativa de fechamento do regime, seguindo o cronograma de populistas de extrema-direita em outros países.

Em relação ao presente, se a crise sanitária, econômica, social e política atingir níveis muito extremos, o presidente gostaria de constranger o Congresso e as Forças Armadas a apoiá-lo a implementar o Estado de Sítio.

Mesmo que esse cenário não seja iminente, o pesquisador enxerga Bolsonaro como tentando calcular alguns lances à frente como o jogo vai de desenrolar.

Em caso de uma tentativa de impeachment, o presidente gostaria que o Exército se comportasse como um partido político, como o PT no caso da destituição de Dilma Rousseff, lutando diretamente contra a medida.

A diferença é que o PT fez uma luta política, que faz parte da democracia, enquanto a intervenção do Exército num caso desses tem como ponto de chegada golpe de Estado ou guerra civil, alerta o especialista.

Mas mesmo deixando de lado esses cenário mais extremos, Bolsonaro teria ganhos com a submissão dos militares ao seu projeto político.

Recentemente, o presidente referiu-se ao “meu Exército”. Para a sua base mais radical e antidemocrática, um cenário no qual as Forças Armadas intervenham diretamente na política em favor do projeto bolsonarista é um atrativo a mais.

O pesquisador pensa que Bolsonaro não terá êxito em tentar submeter o Alto Comando das Forças Armadas aos seus desígnios políticos.

O cientista social fala a partir do seu conhecimento e contatos das Forças Armadas e das próprias reações dos militares aos últimos acontecimentos. Como noticia o site do Estadão, os comandantes das três forças já deixaram claro ao novo ministro da Defesa que não se desviarão da Constituição.

Mas existe o risco de sublevações quando se pensa no oficialato intermediário e nos praças, que, assim como a Polícia Militar, têm um pendor muito mais ardente para o bolsonarismo.

O recente episódio na Bahia de um PM morto por seus colegas ao ter um surto psicótico e começar a alvejá-los, que foi explorado pelo bolsonarismo como uma heroica resistência à autoridade do governo da Bahia, Rui Costa, mostra que o País pode estar entrando num terreno minado. A violência política parece mais próxima do que em qualquer outro período desde a redemocratização.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 30/3/2021, terça-feira.