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Bolsonaro se deu bem na economia

Ao fim do primeiro ano do governo, astros se alinham para criar boas perspectivas econômicas para 2020. Um agravamento muito drástico do escândalo em torno de Flavio Bolsonaro, porém, é um risco para a política e a economia no próximo ano.

Fernando Dantas

18 de dezembro de 2019 | 18h55

O primeiro ano de governo está terminando bastante bem para Jair Bolsonaro na esfera econômica. Diversos astros estão se alinhando para dar uma cara bem favorável a 2020, pelo menos a partir dos elementos hoje visíveis.

Para começar, tudo indica que a retomada cíclica ganhou tração, e a economia já não se arrasta a um ritmo de pouco mais de 1% ao ano, como vem ocorrendo desde 2017.

“Minha projeção é de que o PIB cresça 2,5% no ano que vem, e eu diria hoje que o risco é mais que seja acima disso do que abaixo”, diz Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP.

Verdade que nos últimos anos os prognósticos também começaram favoráveis, mas eram baseados na suposição de uma aceleração da atividade. Já em relação a 2020, as projeções entre 2% e 2,5% praticamente supõem manutenção da velocidade atual, ou só um pouquinho mais.

O front inflacionário permanece pacificado, apesar do choque de proteínas que puxou bastante os índices neste final de ano, com o gás adicional da desvalorização cambial. Mas os núcleos se mantêm baixos e as expectativas estão firmemente ancoradas.

Com isso, a Selic caiu ao nível recorde de baixa de 4,5%. O que se discute agora é a melhor forma de colocar a cereja no bolo: termina aí mesmo, em 4,25%, em 4%?

O fato é que tanto a taxa básica como a curva de juros em sua inteireza mergulharam profundamente em território de baixa nunca dantes explorado.

O juro real curto anda em torno de 1% e o longo ao redor de 3%, o que mudou, junto com outros fatores favoráveis, a dinâmica da dívida pública. Como disse o secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, o superávit primário de chegada (ao fim do processo atual de ajuste fiscal) não é mais de 3% do PIB, mas sim de algo abaixo de 2%. A dívida bruta termina 2019 quatro pontos percentuais do PIB abaixo do que se supunha há alguns meses, e os prospecto para a frente melhorou muito.

Na área externa, passou-se por um susto. A evolução do saldo em conta corrente, junto com mudanças metodológicas anunciadas pelo BC ao longo do ano, fez muita gente ir dormir com uma fotografia de déficit externo de 1% do PIB e acordar no dia seguinte com outra bem diferente, de um buraco de 3%.

No entanto, uma vez digerido, o novo quadro não é tão assustador. Como mostrou o economista Carlos Kawall, diretor do Asa Bank, é uma certa falácia dizer que, com 3% de déficit em conta corrente, estamos próximos aos 4% pré-recessão de 2014-2016. As mudanças prejudicaram a comparabilidade dos números revisados a partir de 2018 com o que aconteceu antes. O déficit em conta corrente de 2014 é, na verdade, muito maior do que o atual – em termos absolutos, aproximadamente o dobro.

Mas isso não quer dizer que o céu esteja inteiramente de brigadeiro na área externa. A balança comercial brasileira piorou fortemente, e boa parte disso veio da crise da Argentina, importantíssimo parceiro comercial. Caiu a ficha de que há possivelmente um novo equilíbrio no câmbio, num intervalo mais desvalorizado, que Rocha situa num nível aproximado de R$ 3,90 a R$ 4,20. A queda do juro real é um dos fatores, já que não se atrai mais “hot money” como antes.

O mercado de trabalho segue na sua lenta e penosa recuperação, mas somando-se o aumento da população ocupada com o da renda, chega-se a uma massa salarial que pode crescer a um ritmo anual de 3%. Parece o suficiente para manter a retroalimentação entre mercado de trabalho e demanda.

Na verdade, o ritmo moderado da melhora econômica é um dos seus segredos. Ele consome os abundantes recursos ociosos da economia muito gradativamente, e o fogo brando mantém juros e inflação contidos.

Mesmo na área externa, sobre a qual alguns se alarmam de que um déficit em conta corrente de 3% do PIB tenha sido aberto com um ritmo de atividade tão mixuruca, a retomada muito gradual dá tempo ao tempo para que a economia real se adapte. O economista Samuel Pessoa, do Ibre/FGV e sócio do Julius Bäer Family Office, acha que o câmbio desvalorizado deve estimular um processo de substituição de importações de manufaturados no médio prazo.

Em termos da economia global, as notícias também parecem boas e 2019 termina bem melhor do que 2018, ao fim do qual se registrou um susto nos mercados com a perspectiva de uma recessão americana e global.

A recessão não veio, os grandes BCs do mundo inverteram a mão e passaram a estimular a economia em 2019, e os Estados Unidos devem fechar o ano com um crescimento de quase 2%. O início de acordo na guerra comercial entre Estados Unidos e China também deve ajudar o gigante asiático em 2020, e aliviar um dos freios aplicados ao comércio internacional.

Finalmente, no campo das essenciais reformas econômicas domésticas, ninguém espera que o governo Bolsonaro organize sua gestão política e bote o time em campo para ganhar o apoio do Congresso. Mas o próprio Parlamento, como fica claro nas falas de Rodrigo Maia, presidente da Câmara, deve tentar organizar minimamente a agenda, e alguma coisa deve avançar.

Resta ver, porém, se o agravamento – a partir de notícias divulgadas hoje – do escândalo envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, com ramificações que chegam muito perto do pai, não pode desorganizar de forma mais drástica o cenário político, com impactos na economia.

Com uma maré favorável dessas, um salto muito maior poderia ser dado em 2020. Mas também não dá para negar que 2019 termina bem melhor na economia do que se imaginava nos momentos mais tensos do primeiro ano de governo Bolsonaro.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/12/19, quarta-feira.

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