Bolsonaro tem janela de oportunidade, mas não há tempo a perder

Bolsonaro tem condições excepcionais para aprovar a reforma da Previdência e os itens mais difíceis da pauta fiscal: lua de mel com o eleitorado e uma oposição desarticulada e desnorteada, sem líder e sem poder de mobilização. Mas o governo tem de agir rápido, porque essa janela pode se fechar mais cedo do que o esperado.

Fernando Dantas

03 de janeiro de 2019 | 18h20

O governo de Jair Bolsonaro já vem sendo percebido como rachado em duas alas: a pragmática e a ideológica. Ontem, os mercados brasileiros tiveram um dia excepcionalmente positivo, com valorização geral dos ativos muito maior do que a moderada melhora nos mercados internacionais. O diagnóstico dos analistas foi claro: apesar da retórica no discurso do parlatório no dia da posse, Bolsonaro e seu entorno político-econômico deram sinais de inclinar-se para a ala pragmática nos primeiros momentos da largada do seu mandato.

O bom discurso de posse de Paulo Guedes no Ministério da Economia foi nessa direção, mas de longe o sinal mais alvissareiro foi a notícia de que o PSL vai apoiar o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) para a sua reeleição como presidente da Câmara dos Deputados.

“É um sinal de que Bolsonaro quer se aproximar da base de apoio de Temer, o que facilita a aprovação da reforma da Previdência”, resume um gestor no Rio de Janeiro.

Evidentemente, o acordo entre Maia e o bolsonarismo dá munição à oposição. Afinal, o presidente não foi eleito justamente para ficar contra “tudo isto que está aí”, a começar e principalmente pelos métodos “tradicionais” do jogo político brasileiro? E Maia, embora não envolvido em escândalos da proporção dantesca de vários dos colaboradores mais próximos do ex-presidente Temer, não é um parlamentar emblemático da velha forma de fazer política no Brasil?

Bolsonaro, na verdade, tem vários trunfos para lidar com esses primeiros ataques da oposição. Como nota Rafael Cortez, analista político da consultoria Tendências, o Brasil vive um momento singular de desarticulação da oposição.

“Há problemas tanto de liderança quanto de capacidade mobilização – o campo de ação oposicionista parece bem restrito enquanto durar essa popularidade muito alta do presidente e o intenso antipetismo”, diz Cortez.

Adicionalmente, Bolsonaro chegou ao poder como uma banda de heavy metal iniciando o show com todos os instrumentos emitindo a carga máxima de decibéis. São muitos e estridentes os sons, das bizarrices do novo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, ao discurso liberal ‘non-stop’ de Guedes, surpreendente num país em que há poucos anos demonizar privatizações era trunfo eleitoral.

Na algazarra sonora, perdem a eficácia os velhos truques da oposição, como criticar o modesto aumento do salário mínimo (mesmo que tenha seguido a regra criada pelo PT no governo) ou o fato de que Bolsonaro não tenha falado em desigualdade nos seus dois discursos no dia da posse.

Fica mais difícil de escutar também a crítica à incoerência de apoiar a reeleição de Maia, mesmo porque é inegável que Bolsonaro atropelou o modelo do presidencialismo de coalizão ao escolher um ministério sem repartir cargos proporcionalmente à expectativa de votos de apoio no Congresso de cada partido. O presidente pode alegar que, no fundamental, refundou a forma de fazer política, e que o apoio à Maia tem bases programáticas – é sabido que o deputado federal é plenamente a favor das reformas liberais da agenda de Guedes.

Todo esse conjunto de circunstâncias, entretanto, indica que o novo governo não tem tempo a perder com a reforma da Previdência e a agenda fiscal mais premente.

O cientista político Carlos Pereira, da Ebape/FGV no Rio, tem batido na tecla de que é um erro o fato de Bolsonaro ter dispensado a montagem de uma base parlamentar tradicional, com repartição de cargos ministeriais e outros de acordo com a representatividade dos partidos. Para o pesquisador, dada a popularidade de Bolsonaro e a sua proximidade ideológica com o parlamentar mediano, que pende à direita no eixo político, o novo presidente tinha a faca e o queijo na mão para construir uma sólida base de apoio tradicional e obter alto grau de aprovação à sua agenda de reformas.

Ele frisa, entretanto, que a literatura da Ciência Política indica que o tipo de arranjo montado por Bolsonaro, que pressupõe que o apoio popular ao presidente induza o Congresso a também apoiá-lo com votos, costuma funcionar bem no início do governo, na fase de lua de mel. É quando surgem os primeiros sinais de desgaste presidencial que os caciques partidários vão à forra contra um presidente que não lhes beijou a mão de início.

Dessa forma, Bolsonaro tem uma janela excepcional para aprovar reformas difíceis como a da Previdência: alta popularidade, poder de pressão sobre o Congresso e uma oposição sem liderança, desarticulada, desnorteada e sem capacidade de mobilização popular. O problema, porém, é que o tempo durante o qual essa janela permanecerá aberta pode ser bastante curto, quando se pensa em termos de um mandato presidencial. Se desperdiçá-la, Bolsonaro arrisca-se a entrar no grupo de presidentes fracassados desde a redemocratização. É uma lista que tem dois nomes, Collor e Dilma. Os dois terminaram sofrendo impeachment.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/1/19, quinta-feira.