Boom do varejo resiste, mas deve desacelerar

Números de outubro do varejo vieram acima das expectativas, mas analistas consideram que fatores como o fim do auxílio emergencial devem desacelerar o ritmo no final do ano. Em muitos segmentos, os últimos meses até outubro representam níveis de boom.

Fernando Dantas

11 de dezembro de 2020 | 10h53

As vendas no varejo em outubro vieram bem acima da mediana do Projeções Broadcast, tanto no conceito restrito quanto no ampliado, que inclui veículos e materiais de construção.

Em relação a setembro, na série dessazonalizada (como todas as comparações nessa base), o varejo restrito cresceu 0,9%, teto das projeções, e o ampliado, 2,1%, encostado no teto das previsões, de 2,2%. Em relação a outubro de 2019, o restrito cresceu 8,3%, e o ampliado, 6% – ambos os números bem acima da mediana do Projeções Broadcast.

É uma boa notícia, claro, mas que não muda a visão de uma expressiva corrente de analistas, de que o boom do varejo este ano deve arrefecer ao longo do quarto trimestre e, especialmente, no início do ano que vem.

Os números são de fato impressionantes.

Como divulgado hoje pelo IBGE, e reportado por Daniela Amorim, da Agência Estado, o nível das venda do varejo restrito estão num patamar 8% acima do anterior à pandemia, em fevereiro. E, no caso do varejo ampliado, 4,9% acima.

Setores como materiais de construção, ‘móveis e eletrodomésticos’, ‘outros artigos de uso pessoal e doméstico’, artigos farmacêuticos e supermercados estão, respectivamente, 21,5%, 19%, 13,3%, 9,6% e 6,1% acima do nível pré-pandemia.

São números de boom econômico, num ano em que o PIB deve cair de 4% a 5%. Explicáveis por fatos como o de que a renda, que era para cair cerca de 4%, deve subir na mesma proporção, graças a programas de apoio financeiros a famílias como o auxílio emergencial.

Há também o BEm, programa de manutenção de emprego, que não só contribuiu para preservar renda mas também para dar segurança às famílias, o que incentiva o consumo.

E, finalmente, o impedimento de consumir serviços, por causa da quarentena e depois do isolamento social espontâneo, desviou consumo para os bens.

A visão é de que os programas de apoio à renda e ao emprego estão gradativamente saindo de campo, e isso vai frear o consumo de bens.

Além disso, os patamares mencionados acima para alguns setores são tão altos que se imagina que haverá acomodação. Embora o consumo de bens seja mais acumulativo do que o de serviços, quem acabou de trocar o fogão e a geladeira não vai trocá-los de novo na sequência. Há limites.

Adicionalmente, a reabertura da economia reabre também muitos serviços, que passam a disputar com os bens a alocação do consumo das famílias.

Nesse ponto, a segunda onda da pandemia, levando ao isolamento social voluntário, pode curiosamente favorecer o varejo. Mas a segunda onda também restringe a circulação (e circulação é positiva para o varejo, ainda que o e-commerce crescentemente compense esse tipo de restrição) e pode aumentar a poupança precaucional das famílias.

Difícil prever a resultante desses fatores pró e contra ao varejo da segunda onda, como aponta Lucas Rocca, economista da consultoria LCA.

Rocca projetava números piores para o varejo de outubro, mas explica que parte significativa da explicação para a surpresa se deu por conta do item hiper e supermercados, que cresceu 0,6% “na margem”, isto é, ante setembro. A LCA esperava ligeiro recuo (houve três queda sucessivas na margem), sobretudo pelo peso da inflação em alta nesse tipo de compra.

Mas o economista considera que o bom resultado de outubro não muda relevantemente o panorama que ele já contemplava, que inclui desaceleração do varejo no último trimestre por conta da “desidratação” de fatores como o auxílio emergencial e o BEm.

Ele observa que segmentos que ainda não atingiram o nível pré-pandemia, como combustíveis, veículos, tecidos e vestuário, prosseguem em recuperação gradual. No momento, estão cerca de 5% abaixo do patamar de fevereiro.

O que não ocorreu, por outro lado, foi uma acomodação mais expressiva dos segmentos que já ultrapassaram o nível pré-pandemia, como o mencionado hiper e supermercados, materiais de construção e ‘outros artigos’. Já móveis e eletrodomésticos recuaram entre setembro e outubro.

Uma possível explicação para que outubro tenha mantido o ritmo de compras, segundo Rocca, foi o forte aumento de circulação das pessoas, favorável ao varejo presencial. Nesse ponto, pode ser que a segunda onda tenha efeito reverso, mas a conjunção de fatores é complexa, como mencionado acima.

A avaliação de que os bons números de outubro são mais um sinal de que a desaceleração do varejo está custando um pouco mais a chegar, e não de que ela não virá, é corroborada também pela economista Luana Miranda, do Ibre-FGV.

“Para o final do ano, continuamos esperando uma acomodação com o esgotamento gradativo do auxílio e de outros programas governamentais, e não uma expansão ininterrupta  do varejo, que renovaria continuamente máximas históricas”, ela diz.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/12/2020, quinta-feira.