Brasil à mercê da biruta global

Mercados não reagiram muito ao novo downgrade do Brasil pela S&P esta semana, num sinal da importância de um mundo incerto e volátil para determinar a sorte da economia nacional.

Fernando Dantas

19 Fevereiro 2016 | 17h59

A fraca reação inicial dos mercados ao downgrade da Standard & Poor’s (S&P) – que, além de ter surpreendido, joga o Brasil para o segundo degrau abaixo do grau de investimento – indica como se tornou forte e determinante o ambiente internacional para definir o risco e a evolução da economia brasileira. O downgrade foi anunciado na quarta-feira, 17/2/16.

Desde o início do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, o desastre econômico doméstico lançou as bases para uma crítica contundente da política econômica do primeiro mandato. O fato de que os próprios formuladores e executores desta política tenham em algum momento lançado mão da expressão “nova matriz econômica” criou uma espécie de “judas”, sintetizado num único e emblemática rótulo, que vem sendo malhado impiedosamente desde pelo menos 2014 por economistas e analistas em geral de perfil mais liberal e ortodoxo.

Esse furor crítico em relação à política econômica doméstica, em grande parte merecido, e agravado pelos escândalos e pela crise política, por vezes desvia a atenção da relevância do que acontece no mundo para definir os próximos capítulos do dramático enredo nacional.

Como nota Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX Investimentos, no Rio, a quarta-feira (17/2) do downgrade foi um dia de risco positivo (ou “risk on”, como se diz no jargão internacional) nos mercados globais: o petróleo subiu mais de 6%, o peso mexicano valorizou-se expressivamente depois que o BC do país convocou uma reunião extra e elevou a taxa básica em 0,5 ponto porcentual (o que influenciou outras moedas emergentes) e o Federal Reserve (Fed, BC americano) emitiu mais sinais “dovish” (de brandura monetária).

Esse colchão de tranquilidade e otimismo relativo ontem amaciou a notícia do downgrade e o credit default swap (CDS) dos títulos soberanos brasileiros de cinco anos encerrou a quarta com alta de 10 pontos base (0,1 ponto porcentual). Hoje o mercado mostrou-se menos favorável, com ligeira elevação do CDS, com alta do dólar e pequena queda na bolsa no momento em que esta coluna estava sendo escrita. Ainda assim, longe do que se suporia como reação a um evento negativo e surpreendente de rating.

Uma segunda explicação para essa baixa reatividade do mercado é defendida por Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores, e pesquisador associado do Ibre/FGV-Rio. Ele acha que o risco brasileiro já precifica – na comparação com outros países – níveis de risco piores do que a média das notas atuais das três principais agências. Desta forma, não há razão para reações adicionais.

“O CDS brasileiro, pelo menos desde meados de dez de 2015, já embute um rating entre dois e três níveis abaixo do grau de investimento. A reação dos mercados ao downgrade de ontem somente confirma essa avaliação”, diz Borges.

Já Solange, da ARX, considera que o rebaixamento de ontem pode vir a pesar num momento em que o mercado entrar de novo em clima de risco negativo (“risk off”). Ela ressalta que, diante da grande volatilidade e incerteza da economia global, isto é algo que pode acontecer a qualquer momento – seja com novas quedas do preço do petróleo, ou sinais de força na economia americana (que poderiam levar novamente a expectativas de alta de juros), ou mais uma rodada de problemas na China.

Na visão da analista, há duas correntes principais de interpretação da cena econômica internacional. A primeira se tranquiliza com a postura “dovish” dos grandes bancos centrais e considera isto positivo para o Brasil e demais emergentes. No caso brasileiro, ganha-se tempo para postergar o ajuste.

Outra corrente, entretanto, vê a ação dos grandes BCs como inútil, dentro de um quadro de estagnação secular. Nesta abordagem, não há mais espaço para política monetária nem fiscal nas grandes economias, e a falta de crescimento acabará levando a crises nos pontos mais sensíveis do sistema econômico-financeiro global, como o setor bancário, por exemplo. Estas crises, por sua vez, aumentarão a percepção de risco, podendo levar a uma fuga para ativos ultra seguros. É a situação em que o dólar se aprecia e os juros americanos caem (pelo fluxo de recursos para títulos do Tesouro dos EUA), mas de forma danosa aos emergentes.

Solange nota que o Brasil está à mercê do que acontecer no mundo, já que a política econômica nacional é débil, e não sinalizou até agora soluções críveis para nenhum dos seus vários problemas – descontrole fiscal, queda do PIB e inflação em alta.

“Não construímos nenhuma rede para o caso de o mercado internacional dar outra chacoalhada”, conclui a economista. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 18/2/16, quinta-feira.